sábado, 22 de outubro de 2011

ainda-assim-você-fica.


Ao som de Miss Me - Kat Parsons

Ele dirias com a voz rouca de quem acabou de acordar que eras inapropriado que ela já estivesse pronta para voltar para casa, que eras dolorido ter que vê-la partir antes mesmo de tê-la um pouco mais. E levantando da cama as pressas dirias com a voz um pouco mais estável que não queria que ela fosse. E em silêncio ela aprontaria um sanduíche com muita alface, pouca maionese e picles, caso sentisse fome na viagem. Já era tarde e já fazia tempo que acontecera o beijo. Ele dirias que o beijo dela conseguira ser diferente de tudo que já provara até então. E repetirias que não queria que ela fosse, não antes de poder provar daquilo mais uma vez. Iria do quarto para a cozinha, a abraçaria por trás e dirias já com a voz intacta:


"bom dia, meu amor... por favor, fica mais um pouco, fica comigo que eu quero te dar o mundo, deitas no meu colo e deixas com que eu afague seus cabelos úmidos com minhas mãos que adoram passear inocentemente pelo seu corpo, fica que eu te quero imensamente bem, fica que já tenho muito sentimento por ti, fica porque eu sei que tu queres ficar, me abraça e entendas que eu posso retirar todo medo que ao acaso venha te tirar o sono, fica que eu te escreverei poesias em todos finais de tarde, fica que no meu coração tem espaço pra nós dois, encostes seu rosto no meu ombro que eu te protegerei do escuro, fica para que eu possa colocar todas suas músicas preferidas pra tocar, fica pra que minha boca encontre a sua lentamente, fica pra que eu tires retratos seus, fica para que eu segures sua mão enquanto vemos tv de madrugada comendo cupcakes coloridos, fica e moras em mim que criei um jardim só pra ti, fica que eu lerei contigo até que tu adormeça entre meus braços, fica porque gosto muito muito muito de ti, fica que esse carinho é deveras muito especial, fica, só fica, nem que seja só por ficar... por favor, meu amor, fica mais um pouco"


Ela olharia em volta, respiraria fundo, ignoraria todas as outras coisas que a atormentavam e diria que sim, diria um milhão de vezes que sim, que ficaria.
Ele dirias em todo terceiro dia do mês que ela eras diferente de todas que já conhecera, e repetirias em todos os próximos dias que viessem. Os dois acabariam dividindo o sanduíche e voltariam para cama. Ele dirias baixinho o quão estava feliz e que faria de tudo pra fazê-la feliz também - serias tão verdade. Ela ouvirias com um sorriso doce, olharias profundamente pra ele e o tempo congelaria.
E ele dirias, dirias tudo isso se ela realmente estivesse ali, se ele realmente tivesse acordado antes dela subir no táxi em direção a estação de trem. Ele dirias se ainda houvesse tempo, se ainda fizesse algum sentido dizer. Ele dirias, com toda certeza, dirias.

E se não diz mais ''fica comigo'', em pensamento desejas a todo minuto dizer ''volta pra mim''.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011


Ao som de Radiohead - Creep

Meu amor,
Você me perguntou na sua última carta como eu estava e te mando a resposta agora, já voltei a fazer muita coisa que escrevi aqui... Deixei para vir andando até o correio, isso demorou um pouco. Mas não mudo nada de lugar, deixo você saber como foram os dias passados.
*
Cansei de tanta agitação, de tanta velocidade, de correr até cansar. Estou querendo meu sossego de volta, querendo a marola, cansei de dropar todas as ondas. Estou querendo sentar na areia e apenas observar, sentir a brisa, a maresia da vida. Cansei da efusividade, cansei de beber por aí, tão sem graça, tão feio - sempre achei. Que me deixem, que falem que sou careta, que falem que eu não sou. Estou querendo mudar hábitos que não me servem. Cansei de falação. Estou querendo voltar a meditar diariamente, estou querendo meus livros, meus amigos mais fiéis. Cansei de ser trovão, água fervente, guitarra elétrica com cordas arrebentadas. Estou querendo voltar para o meu violão, para a bossa-nova, para o chá de canela. Que me deixem curtir minhas músicas, que me deixem em silêncio com Caetano, Chico e Cazuza, as vezes Radiohead, Coldplay e minhas cantoras preferidas. Que me deixem com meus filmes nacionais, com o Woody Allen e com o Almodóvar. Que me deixem ler García Márquez e Martha Medeiros, assim, ao entardecer, numa praça qualquer, com o vento no rosto, tranquila. Tempo, pausa para respirar, como se eu estivesse brincando de mãe cola - estou no pique. Estou querendo mais cinema, chocolate quente, seriados de tv e pizza. Intervalo. Fim de uma temporada da minha vida que todo mundo assistia - ou pensava assistir. Estou querendo dizer que pouquíssimas pessoas tem direito aos extras, onde tudo realmente acontece - você é uma dessas pessoas, se quiser, é claro. Cansei de badalação. Estou querendo continuar intensa como sempre, mas sentadinha aqui, com as minhas coisas, com as minhas confusões, com toda a simplicidade de sempre. Nunca abandonei isso, mas estou querendo mais ainda o deslize por entre os lençóis, o acordar, o beber café, o olhar pela janela, sem pressa, sem urgências. Estou me querendo de volta, sem nunca ter partido. Estou querendo seguir meus sonhos com a loucura de quem sonha, mas com a calmaria de quem acredita e sabe esperar.

PS: Nesses últimos meses, ter te encontrado no meu caminho me fez resgatar e perceber muitas coisas. Saiba disso. Espero suas cartas, gosto de saber de você. Me escreva sempre. Paz, paz, paz.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

entre invernos e infernos da alma

"Eu não sei em qual momento eu me perdi, só sei que não procuro mais descobrir ou recuperar o que foi perdido. Fui fraca, inteiramente fraca, me deixei levar. As pessoas me chamando, os meus próprios fantasmas me levando pela mão pro sem volta de mim. E sabe, havia sim uma pontinha de esperança de que tudo ficaria bem a partir dali... não ficou. O que no começo era divertido, passou a ser só ilusão. Então coloquei uma máscara tão firme, que um tempo depois de a ter colocado eu já não sabia o que era o meu rosto e o que era artifício. Me tornei uma pessoa completamente diferente e fui matando o meu "eu" verdadeiro aos poucos, só sobrou o inventado, o transformado e eu perdi totalmente o controle dos meus pensamentos e das minhas ações. Ganhei uma coragem falsa e um punhado de dores novas, sempre revestidas de inconsciência e confusões. Pura insensatez. Mas eu não culpo ninguém, nem a mim mesma. Quando estou aqui parada - sob nenhum efeito - de longe eu enxergo as chances, mas não consigo alcançar sozinha. A gente muda cara, é isso, às vezes por escolha, às vezes pela falta dela, e tantas outras vezes pra fugir daquilo que nos dá mais medo. Você pode achar que é exagero da minha parte, mas é tão fácil se perder, sabia? Então continuo vagando por aí como se uma desconhecida vivesse dentro de mim. Até quando? Não sei, vou levando a minha vida enquanto ela não me leva."

Texto encenado na peça Tá Inverno no Inferno - Abril de 2011.

terça-feira, 12 de julho de 2011


Silenciava enquanto as linhas tortas que faltavam iam sendo escritas, enquanto relia as frases intensas, revisava todos os erros, grifava os melhores trechos e admirava como numa súplica todos os detalhes ilustrados. Silenciava enquanto deixava cair suavemente a última folha suspensa para finalmente fechar o livro, embalá-lo com o material mais resistente e guardá-lo para sempre no baú de memórias.

domingo, 3 de julho de 2011

caindo em tentação pelo verbo descobrir II

Passaram muitos meses e ainda continuo descobrindo coisas, algumas bobas - se é que descobrir pode ser bobo -, mas quase sempre dignas de serem descobertas... tenho certeza que será sempre assim, eu&elas. Descobri que não adianta fugir dos acasos, que não adianta correr demais daquilo que já era pra ser antes de ter sido. Descobri que sonhos se tornam realidade e que é possível quando aquilo que você sente passa a adquirir mais confiança e menos pensamentos negativos. Quando tudo o que você sente está de acordo com o que você é. Passei a perceber também que a gente tem que passar por muitas coisas até chegar onde é preciso, e quando digo preciso, é de chegar a uma espécie de crescimento emocional, ou seja lá como isso é chamado. Descobri com um pouco de inquietação que o saber do esquecimento é quase tão incômodo como não conseguir esquecer. Que meu sorriso bobo e minha força - tantas vezes questionada-, me trazem coisas doces, as minhas situações preferidas, mesmo que tempos depois de terem sido desejadas. Entendi que é preferível mergulhar de cabeça em algumas coisas do que ficar a mercê na beira do nada. Descobri que é preciso ter coragem de sobra pra enfrentar passados marcantes e futuros incertos. Que continuo sonhando, que continuo seguindo com uma fé inabalável mesmo em meio a tantas vontades súbitas e breves de desistência, que continuo amando com toda a minha força tudo aquilo que me faz acreditar em mim mesma e que de alguma forma me completa. Descobri que as coisas mudam, que as pessoas mudam, mas que mudanças são extremamente necessárias. Eu posso mudar, posso me consertar, posso insistir nos acertos, posso ser mais tranquila, mais nítida, mais eu, posso quebrar as regras se isso for o que eu quero, sem me preocupar com os outros. Descobri que o mundo gira, que dever é subjetivo e que alegria é abstrata, mas real. Que olhares verdadeiros me conquistam por uma vida inteira e que tenho mais medo de andar de avião do que supunha. Notei que posso lidar com as decepções de forma com que a dor só me eleve de nível, me fazendo crescer e não me passando para trás. Descobri que são as minhas escolhas diárias que me levam além da cama feita. Descobri que tomar um café com chantilly em um dia frio enquanto olho pro céu através dos espaços vagos dos galhos das árvores me fazem sentir como se eu e o universo inteiro fossem uma coisa só. Que minhas confusões me embolam bastante, mas me desembolam de um tipo pronto e limitado de ser, sempre me obrigando a buscar novas respostas. Percebo que sair da zona de conforto pode ser dolorido, mas lindo ao mesmo tempo, porque de alguma forma faz com que tudo se renove. Que arranco minha razão cada vez mais do silêncio, do detalhe, do ingênuo, do puro, do simples, do imperceptível, dos "sins" escondidos. Sim, passaram muitos meses, e tenho cada vez mais certeza. Finalmente, a descoberta de hoje, sobretudo, é essa: que posso continuar descobrindo um milhão de coisas entre minha última palavra e esse ponto final.
caindo em tentação pelo verbo descobrir I :


sexta-feira, 17 de junho de 2011


“Não desista, vá em frente, sempre há uma chance de você tropeçar em algo maravilhoso.” CFA

Meu amor,
Tinha um degrau, uma subida horrivelmente dolorida... suponho que subir correndo seria o maior dos erros, quase mortal, você entende? Foi por isso que parei um pouco para analisar os fatos e cheguei a uma conclusão terrível: onde é que aquilo tudo iria me levar? Eu não sabia, eu não sei. Tenho certeza que você falaria pra eu continuar e ver onde ia dar, porque ia dar, uma hora ia dar em algum lugar… e se esse lugar for feio baby? E se eu não encontrar nada? E se eu ficar subindo sem nunca chegar? Tem razão, a ida é sempre a melhor opção, mas só estou aprendendo a ser um pouco mais decidida nesses últimos meses, me entenda. Não quero te ultrapassar, não quero passar por você como quem não vê nada. Me diz, terá realmente alguém me esperando? É por isso que eu disse: tinha um degrau e uma quase certeza de tombos - você mais do que ninguém sabe como eu sou desajeitada e distraída, sempre metendo os pés pelas mãos, sempre escorregando, um tanto errada e desequilibrada por natureza. Tudo bem, agora pensando nisso tudo com calma eu percebo que é mais do que certo que devo continuar, apesar de tudo... com tranquilidade e com passos certeiros, sem correr e incansavelmente. Vê só como estou me restabelecendo com aquela coisa chamada esperança? ou confiança, já não sei a diferença dessas coisas todas. Acho que é disso que eu não posso abrir mão durante o caminho, mesmo que me levem para becos sem saídas. Só quero que você fique ciente que se eu passar por ti e não olhar é porque estou muito focada onde quero chegar, embora não saiba absolutamente nada sobre o que - ou se - vou encontrar. Vou calçar meu all star velho, vou olhar para frente e subir, pouco a pouco... sei que atrás dos meus pés tudo cairá no escuro e não haverá jamais a alternativa de volta. Estou seguindo em frente. Um degrau depois do outro, respirando e sentindo, sentindo amor, sentindo alegria, sentindo paz. Não penso mais em chegada, mas em como está sendo minha ida. Torce por mim? Seja lá em que posição você esteja nesse caminho - onde não existe podium - mas que é infinitamente cheio e coberto de mim.

Março de 2011

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Quase induzido


Os olhos hipnóticos que nada dizem. O caos que eles trazem, as dúvidas, o momento presente enquanto não consigo deles desviar. Me atingem em cheio, como uma lança envenenada digna de um filme pseudo-mágico. O susto não veio, porque não era possível pensar, não diante deles, não parada na porta do bar onde cruzei com eles pela primeira vez. Um bar não é um bom lugar para se conhecer alguém, muito menos para paralisar diante desse mesmo alguém. Está todo mundo muito feliz, muito alegre por causa da bebida, descontraídos por causa do fim de semana, esquecidos das dores por estarem longe de casa, anestesiados pelo fingimento... não é bom se interessar por quem parece muito feliz. Claro, claro que falo com base nos meus conhecimentos - mínimos, diga-se de passagem - mas eu gosto mesmo é de descobrir o ponto fraco de cada um, a dor de cada um, só assim a gente entende o que os olhos trazem, só assim. Acho o estado de felicidade - muitas vezes forçado - um estado que não revela muito, a gente se conhece mesmo é nas barras pesadas que atravessamos. Não digo que gosto do sofrimento, não é isso, só gosto da ideia de que - ao acaso - os olhos revelem o escondido, o interno, o intocável. Daqueles olhos fugazes ainda não conseguia arrancar nada disso, não conseguia descobrir os medos, nem as farsas, nem nada... era isso o que mais me incomodava. Eles eram grandes, misteriosos, e não chamavam a minha atenção por causa da cor, mas porque me pareciam demasiadamente complexos. Eles eram negros, um poço pronto para te engolir, e eu ainda estava ali, imóvel, sem que o corpo reagisse para correr, sem dar chance - ao menos - para que eu desse um passo para trás, ficando fora de seu alcance. Eles me olhavam sem realmente me ver, porque primeiro: eu era uma pessoa difícil de ser notada, e segundo: o que desejavam era apenas prender sem nenhuma outra intenção, e quando digo prender, é apenas por mera rotina que uma pessoa executa no fim da tarde, quando entra num bar, bebe três ou sete cervejas e sai procurando alguém. Não era isso, embora eu não visse claramente, eu sabia - inconscientemente - de cada detalhe que passava ali dentro, e não tinha força alguma para parar de tentar ver mais, como se dentro da minha hipnose eu fosse quem descobria os traumas, e não quem revelava eles, os papéis trocados. Eram olhos duvidosos, incompreensíveis, incógnitos. Me traziam o caos porque eu não sabia arrancar deles a palavra certa para explicar, me traziam a dúvida porque eu não sabia qual seria o próximo movimento. Eles não me procuraram em nenhum momento, fui pega sozinha e... eu ia falar indefesa, mas ia parecer que eu sou uma coitadinha-fácil-de-ser-hipnotizada, mas não sou - antes fosse, seria mais fácil deixar-se envolver sem saber de nada -, mas sou daquelas que olha de olho por olho, procurando vestígios.. que não sente-se influenciada por eles - tudo bem, dependendo do olhar é impossível não ter vontade de mergulhar, o diante de mim agora era assim -, que gosta deles por eles não serem apenas olhos, mas a porta de entrada pro mais camuflado que possa existir - mudo então a frase e digo: peguei aquele olhar sozinho, vulnerável.. de fato era eu quem hipnotizava, não no sentido de ser fatal, mas por ser curiosa e amante do invisível, fazendo com que tudo parasse para descobrir pensamentos, ilusões, perdas e ganhos - mas aquele olhar não precisava se preocupar, eles tinham algo a mais. Respiro em meio a pausa, estou quase descobrindo, quase, quase lá.. Quanto tempo dura? Um minuto, dois no máximo e o transe se desfaz, os olhos somem como fumaça - foi por pouco. Entro no bar, meio atônica, peço uma cerveja, não olho para trás, ajeito o cabelo e passo a esquecer das minhas próprias dores e entro nos meus esconderijos - estou feliz e descontraída, as coisas se revelariam turvas, e naquele momento, só quem fosse como eu descobriria o que os meus próprios olhos escondem e gritam. A hora de voltar para casa chega, é a hora de chorar um pouco no escuro enquanto penso naquele belo par de olhos, que não consegui desvendar, mas que mexeram completamente comigo - e que por algum motivo - infeliz - não conseguiram me levar junto com eles... não me desespero, quem sabe consigo no próximo encontro, no próximo bar, nos próximos olhos que me façam querer saber, que queiram me revelar muito mais do que é - simplesmente - permitido.

quinta-feira, 19 de maio de 2011



E em meio a tanta vontade, falta vontade. E na sobra de tantos desejos, ainda falta. No mar de não, falta um sim. Nessas loucuras sobram faltas e faltam sobras. Transbordando querer, sem querer.



sábado, 14 de maio de 2011

que me completa pela existência.

Nunca toquei a sua pele, nunca te falei desse encanto enorme que alimento, nunca encarei seus olhos doces de amêndoas, nunca estive a menos de quatro passos de distância do seu mistério leve, do seu coração pulsante e da sua maneira inebriante de ser. Sonho com você, sonho em tudo o que não posso fazer... te abraçar, sussurar em seu ouvido que te quero bem, parar na sua frente por um tempo incalculável e admirar seu rosto nos mínimos detalhes, tocando com a ponta dos meus dedos os seus cabelos levemente ondulados. Penso então que o nunca de nada me impede de continuar, de buscar o teu olhar no meio da multidão, de competir com os outros um pouquinho de atenção, de te escrever poesias bregas que você não chegaria a ler e cantar músicas que você não chegaria a ouvir. Sou uma anônima sonhadora que nunca ultrapassou a sua barreira, sou quem escreve palavras transparentes que nunca chegaram nem perto do seu campo de visão. Me utilizo da calma já acumulada por tanto tempo, e espero o dia em que tudo isso passará do plano imaginário para o plano real - velozmente, caoticamente, tanto faz -, mas que te trará de vez para os meus braços, em um momento só nosso. Sei que nesse encontro sentirei a alegria e o calor que você - naturalmente - possui, porque já pensei e planejei isso diversas vezes. Nunca te disse meu nome, nem o que ando fazendo, nunca troquei uma palavra sequer contigo, mas sei o quanto tudo isso existe - os sonhos ainda contam? Outra vez me pego sonhando com você, no dia em que desesperadamente te confessarei o meu sentimento louco, esse que escorre pelos meus olhos, que você nunca viu, mas que verá - num dia suficientemente propício. Sonho, sonho, sonho, enquanto não posso te ter, enquanto não posso chegar mais perto, enquanto a questão de coragem, entrega e sorte não se faz também presente. Imagino todo o meu percurso em sua direção, enquanto acredito que um dia o "nunca" possa se tornar "sempre".

quarta-feira, 11 de maio de 2011



Não, eu não sei o que dizer, não sei dar nome ao que ficou - depois de tudo. Eu comecei a aceitar com a máxima naturalidade os nossos silêncios. Lembro de todos os estágios de sentimentos que me trouxeram até aqui, e agora se eu fosse dizer alguma coisa seria algo como “é amor, e ele existe” e é isso que me leva de volta pra você todas as vezes. Como se tudo que é pra ser nosso, volte uma hora ou outra. Não, não tenho mais vontade de te dominar, te ter só pra mim, e esse é o segredo, nossa liberdade. Sabe? é uma coisa calma, uma sensação boa, um não esperar nada em troca e só sentir, um amor que só se manifesta, sem cobranças, sem mesmo precisar do corpo, só da alma. Nossa incompreensão é o mais bonito de tudo. Você mudou, eu mudei, e sabemos. A gente sempre sabe quando uma coisa vai continuar existindo, mesmo que lá no fundo, mesmo que guardado a sete chaves. Eu falaria de outras vidas, você acreditaria? Só sei que é uma coisa serena, limpa, inteira. Isso pra mim basta, mesmo sem saber por onde tu andas, além de andar sempre comigo.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Estou sentindo alguma coisa estranha. Por favor, feche a porta. Fique para o lado de dentro idiota. Não sei se devo, mas deixo você entrar, só fique sabendo que não dá mais pra voltar se você, por acaso, resolver sair. Você não pode falar dessas coisas agora, entenda. Não consigo me mexer. Para de me olhar com essa cara, ainda estou respirando. Sim, meus olhos ficam ausentes quando isso acontece, eu fico meio ausente as vezes, mas quem é que percebe? Claro que não sei pra onde ir e nem o que fazer se eles entrarem aqui. Você sabe? É tudo de propósito, tudo. Me alcança a toalha, preciso me secar. Olha aqui, vem ver se esse corte está mesmo prestes a sangrar. Porra! Para de repetir que não se importa. Não, não foi com você. Recolha as roupas estendidas na janela e a feche também. Cuidado com essa sujeira, olha meus livros, meus acasos, meu sorriso, cuidado. Eles foram embora logo depois que eu entrei, já te disse. Deve ter sobrado um ou dois, eles adoram me meter em problemas. Já não pedi clareza? ao menos agora, ao menos quando eu mais preciso. Ah, idiota, pare de rir, estou falando sério. Larga essa chave, joga fora. Não posso mais sair daqui, será que você não entende? Olha o absurdo contido nas suas palavras, não é hora de me negar um pouquinho de verdade. Eu devia ter dito tudo antes, mas não sabia que voltaria a acontecer. Ainda não eram quatro horas, errei novamente o horário, maldita distração imposta de sempre. Cuidado, você quase tropeçou no meu orgulho. Não estou tentando nada. Só quero ficar aqui dentro enquanto eles não vão embora. Seca meus cabelos? Pedir pra você curar meus ferimentos já seria pedir demais, eu sei, eu sei idiota. O que é isso na sua mão? Porra! Você também esteve lá fora? Você tem um corte igualzinho ao meu, mas não vamos medir profundidade agora, por favor, não há tempo. No armário deve ter curativos, pega ali, não tenha medo de invadir demais, só cuidado com a esperança que eu deixei embaixo da cama. Logo logo eu a tiro dali e troco pelas expectativas usadas e gastas, não se preocupe. Pronto, vem cá, vou cuidar da sua mão, vou cuidar de você. Começa a cantar, o barulho está me deixando nervosa outra vez. A coisa estranha está voltando, ai meu Deus, se afaste. Pegue as chaves, vai pra perto da porta, corra quando eu disser já. Eu ficarei aqui, se salve, vai. Me obedece, ao menos dessa vez, por favor. Tira o amor da frente, ele não pode trancar a saída. Faz qualquer coisa mas, de qualquer forma, o tire do caminho. Acho que entendi, não existe força pra arrancar isso dai né? mas o que a gente faz? Não posso deixar de amar, nem por um segundo, não me peça isso. Tudo bem, confesso que foi uma coragem urgente, não deixaria de avisar pra tomar cuidado com, principalmente, o amor. Calma, respira, encontraremos a solução. Já sei, volta pra cá, a gente pode ficar em silêncio absoluto o tempo que for necessário. Aposto com você que logo logo eles vão embora pra sempre. Não idiota, essa aposta eu tenho certeza que eu ganho. Não fala mais nada, um dia toda essa estranheza vai embora, eu juro. Cuidado também com o meu silêncio, ele está diante de você agora, não se machuque trombando nele, por favor, não me restaria mais nada. Não, eu não ia esquecer daquilo que não nos deixa fugir, claro que não ia. Me alcança aquela alegria abstrata, preciso trocar de roupa antes de tentar novamente. Psiu idiota, chega de falar bobagens. Psiu, se acalma, seja lá quem você for, quero que saiba que, enquanto ficarmos aqui, eu cuido de você... eu cuido de vo.. eu cui..

quarta-feira, 13 de abril de 2011

por mais um dia sem data.

A garganta reclamava em dores pela mudança de tempo, ou por aquilo que foi obrigada a engolir. Tinha se enganado nos dias anteriores dizendo que tombo não houve, vai ver a dor surgiu por causa de algum desses escorregões que lhe deixavam no chão gelado. Tinha ficado cega ao ponto de não conseguir ler a placa gritando "danger" bem a sua frente. Estava também perdida no tempo, não sabia dizer que mês ou que dia era, e - como fraqueza - evitava o calendário. Foi então que de alguma forma anônima lembrou como ele lhe dizia: "just mistakes baby". Não queria levantar da cama - mas levantava, sempre levantava. Os braços igualmente doloridos de tanto aperta-los na falha tentativa de espantar seu frio temporário. Ele a tinha alertado tanto, tinha sublinhado e escancarado que a sua impulsividade tinha de ser um tanto controlada - mas como é que se controla impulsividades tão vivas quanto aquelas? Gostava de como ele usava as palavras "surtada" e "irracional" para descrevê-la. Nunca viu maldade naqueles adjetivos, eram apenas uma tentativa de falar que já havia passado por aquilo e que era necessário estar prestando bastante atenção em certas atitudes - não só suas - mas a sua volta, - pra saber levantar, ou melhor, pra nem precisar cair. Era contida em misto com exageros. Tinha paciência enquanto queria mesmo era intensidades. Tentava ser correta ao mesmo tempo que cometia erros absurdos. Desejava falar claramente dos seus sentimentos enquanto era amante do subentendido. Sentia falta dele. Sentia que o tempo poderia não ter passado, e que as dúvidas de sempre não tivessem sumido. Era engraçado, porque tudo o que queria era que as coisas não ficassem paradas diante dela, quando tudo o que ela fazia era ficar parada dentro delas - das coisas, das graças, da vida. Não permanecia estática - era seu maior desejo sendo realizado. Outra vez se viu diante do medo. Não, medo não era a palavra, não mesmo. Era estranho pra ela saber que todas as amarras soltas na verdade não passavam de novas amarras disfarçadas. Precisava de cautela, ou precisava gritar. Não precisava de nada. Só ser ela mesma, e isso era. Anyway, não devia ficar triste com aquilo que sempre a fez feliz. E sem pensar, quis muito ir ao encontro dele, e foi, porque podia fazer tudo aquilo que quisesse, o resto não lhe dizia respeito. As suas próprias opiniões só serviam como uma barreira pra que ela ficasse sem sair do lugar - outra vez. Arriscou, caiu, pediu desculpas - pra ele, pra ela, pra todos, percebeu que estava errada em algumas coisas e "just living" em outras, tentaria ser melhor da próxima vez, se ela viesse a existir. No quarto vazio tocava a música nacional preferida dele e - consequentemente - a dela: "Não há tempo que volte amor, vamos viver tudo o que há pra viver, vamos nos permitir". Daquele dia em diante então, ninguém nunca mais ouviu falar dela, nem mesmo o médico imaginário que cuidava da sua dor. "O que tinha mesmo de ser feito quando remédios já não estavam ao alcance?" foi a frase que amanheceu escrita em seu espelho, com um belo batom de cor "red", batom esse que ela - em um dia desses sem data - ganhou dele.

domingo, 10 de abril de 2011



Nos primeiros minutos chovia. Havia calma, meu Deus, como tinha pedido por isso. O sorriso sendo pintado no rosto. O espelho, a água da torneira escorrendo inesgotávelmente, o mantra em repetição misturando-se com os desejos bons. Chovia mais forte. Lembrava de dias passados, certamente felizes, uma saudade e tanto - daquilo que ainda viria, daquilo que passou, daquelas pessoas, daqueles momentos. Saiu de casa, dessa vez não tropeçou. Sentou atrás de uma cortina preta, certamente amassada. Respirou fundo sete vezes. Agradeceu muito. A alegria interna se instalava como se quisesse morar ali pra sempre, ou melhor, como se morasse sempre ali. Mãos, corpos, refúgios. Sinais sonoros - três vezes, depois mais três. Ria. Voltou cinco anos atrás, uma oração, a continuidade. Avançou mais um pouco. Era tão abençoada. Tinha o melhor - tinha certeza. Cruzou a ponte, a música começou. Muitos rostos, muitas luzes, muitas vozes. Resumiria com a palavra amor, certamente. A chuva não mais chegava ao solo, havia cessado, só por ela. Gritava por liberdade, sem saber gritar. Só desejava aproveitar, enquanto ainda tinha tempo. Vontade de abraçar o mundo, de beber os sonhos. Fome de abraços, risadas e cumplicidade. Tinha - acreditava. Os meios definitivamente justificavam os fins, ou o correto seria dizer que os fins justificavam os meios? Não sabia, e não se importava. Não lembrava que todo esforço acabava com a frase clichê de que "valia a pena". Apesar da pequena amnésia, sabia que ainda era a hora. Era tudo muito simples, e tudo muito bonito também. Novamente agradeceu, novamente sonhou. Nos primeiros minutos soube - irremediavelmente - o quanto era feliz.

terça-feira, 5 de abril de 2011

I

A vida é assim, um costurar e descosturar adoidado, sem pausas.


Era mais uma daquelas semanas lotadas de coisas para se fazer. Sem mesmo saber o que - porque. Ela atravessou a rua, pediu para que eu a seguisse. Fitei seu vestido rasgado e imediatamente retirei da mochila uma agulha e um fio para costurá-lo. Pedi para que o tirasse e - sem muita habilidade - eu tentei ajudá-la, eu tinha mesmo essa mania de tentar consertar as coisas. Pudesse eu dar pontos em seu coração rasgado, no meu próprio. Lembro que já tinha sofrido com rasgos e furos, e pra vestir novamente aquilo que eu queria tive que me virar pra deixar tudo em ordem- não pense você que foi fácil. Fui então tecendo aos poucos, lembrando como se fazia - sem lembrar de nada. Estava frio, ela tremia e chorava. Seu corpo nu diante dos meus olhos, uma esquina solitária, uma camada de dores nos separando. De longe ouviámos os barulhos dos carros, o tocar dos telefones públicos, o estralar dos cacos de vidro em atrito com o cimento. Ela se encostou no portão de uma velha casa pra esperar minha boa ação de consertar-um-vestido-e-acabar-com-um-sofrimento. Meus dedos cansados de espetar a agulha no tecido leve, meus olhos cansados de não poder olhar além da espessura fina que anteriormente lhe cobria o corpo. Estava claro pra mim que aquele era o momento errado pra entrar em sua vida. Estava claro também que a imaginação dela era bem maior que a minha, o vestido tinha contornos horríveis de exagero, do qual eu não fazia parte. A impressão que eu tinha era que jamais conseguiria terminar de costurar. E que ela não falasse do meu egoísmo naquele instante, que ela nem contasse a história de como ficara assim. Já não sabia o que pensar enquanto nas mãos a agulha movia-se automaticamente, sem muito propósito, sem a motivação inicial. Era um gesto perdido, um movimento para ocupar a rotina - além de prestar um grande favor. Não fazia sentido sentir coisas assim, e por isso sentia. Não fazia sentido falar a verdade - mas felizmente eu não sabia mentir.

Naquele dia, o congestionamento interno, o retrocesso, a falta do pano que ficou pra trás e a ausência - do todo. Lhe devolvi o vestido - que continuava rasgado.

Não lhe devolvi o coração, que - sem querer - rasgou também o meu.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

II

Faziam planos enquanto a trilha sonora se arrebentava entre guitarras elétricas e tons altissimos. Ela preferia Chico, mas ele insistia em ouvir suas músicas metalizadas. Faziam planos ainda assim. Uma mochila, um país distante, os dois juntos. As bagunças internas misturadas, a cozinha imunda pelos restos de comidas levemente aquecida. Ela não tinha cabelos vermelhos e ele não vestia preto. Tinham caído exatamente no mesmo buraco. Uma língua estrangeira demais pra nacionalidade imperfeita deles. Faltaria comida para o gato e ela só vestiria as camisas dele. A bagagem seria extraviada na ida, ficaria perdida em um banco de caminhão onde de carona passaram. Passariam frio ao chegar na pensão da mulher de branco. Tomariam incontáveis sopas de cogumelos e rúcula. Rúcula seria o título de um dos primeiros textos publicados no jornal local, pela autoria conjunta deles. As vozes ficariam cada vez mais roucas pelo excesso de nicotina, whisky e karaokês nos finais de semana. Se perderiam no metrô e chegariam em casa molhados da chuva. Ela esperando ele para assistir um filme água com açucar e ele vidrado na tela pelos filmes de Hitchcock. No natal vestiriam amarelo, pra fugir das tradições. Faziam planos e mais planos, um futuro todo pela frente. Fariam uma tatuagem juntos, ela riria e ele agarraria-se na poltrona do cafofo com as paredes pichadas. Brigariam mil vezes e fariam as pazes embaixo das tempestades de verão. As guitarras elétricas continuariam a berrar, Chico continuaria a embalar os sonos e as noites de amor no chão frio. Tinham lá seus vinte anos e as costas carregadas de sonhos. Faziam planos de viver para sempre juntos - mesmo ela não acreditando no "sempre" - tão diferentes. A trilha sonora mudaria de momento em momento, as roupas ganhariam estilos, as luzes seriam refletidas em mil facetas, os cenários cada vez mais bonitos. Faziam planos, até o dia em que, sem músicas, sem cores e sem ela, um carro arrebentaria seu corpo de homem frágil, que em silêncio adormeceria ao lado do corpo de mulher forte dela, desamparada no hospital da cidade natal, de onde jamais partiriam.

Continuariam sonhando então.

III


Não suporto mais mágoas, meu bem... acredite em mim. Andei distraído, insensível e até vulgar. Só hoje percebi os arranhões, as sedas jogadas em cima da cama, as roupas com cheiro de insatisfação. Suportar é uma palavra estranha não acha? Supor que está. Por tar. Não estou nada, por nada. Sobrevivo, me dizem que é errado, que é exagero. Eu ouvia coisas feias por trás da porta. Era proibido, incoerente. O arrepio não me dizia nada, por nada. Depois que eu fui entender, depois que passei a sentir prazeres indefinidos e contrários. Podia ser sexta-feira, domingo ou um dia comemorativo, eu andava sem ver rastros de mim, os meus passos não marcavam o piso. O ombro ardente pelo machucado exposto, a boca chama sem respostas, o tempo se arrasta até o próximo encontro. As portas sempre fechadas, o feio, o proibido, a vontade de escancará-las. Andei pelos bares mais sujos, excessivamente feliz. Fumei os cigarros mais caros sentado naquele banco da Av. Paulista, um clipe peculiar de tesão reprimido. Procurei um método pra juntar as migalhas de um amor que não existiu. Debitei a compreensão em um ser que não passava de uma taça velha onde bebia-se excessos e quebrava-se entre minhas mãos magras e fracas. Só preciso vomitar minhas escolhas nunca escolhidas. Ninguém precisa de mim, e não ache que é mais um drama de fim de noite, onde o álcool se mistura com os segredos e gozos. Não é ressentimento, é apenas um cansaço míope, que não pode ser visto. Só não suporto mais as mágoas, meu bem... não acredite em nada do que dizem, porque - pra mim - a mentira é a forma mais fácil de chegar no fim excessivo de fracassos.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Quem nunca contou as quedas?


"O não dizer te derruba, mas o não sentir te mata"

Estávamos os dois sentados em cima do muro. Eu fechava os olhos como uma atitude de tomar coragem pra dizer. Minha respiração alterando aos poucos, não sei se ele percebeu. Penso agora e agradeço por - naquele momento - estar sentado, se não certamente minhas vertigens me derrubariam ao chão, onde já não sei se de lá levantaria. A primeira sílaba veio surgindo debilmente, as mãos trêmulas e a garganta parecia não existir. Era tarde da noite e estar sozinho com ele depois de tanto tempo já era deveras perigoso - no sentido mais sensato da palavra. Já estávamos em silêncio há muito tempo, e o muro parecia não aguentar nosso peso. Sorri timidamente e com um força quase sobrenatural a voz parecia começar a sair. Meus lábios abrindo lentamente para deixar escapar aquilo que estava preso e sufocado. Olhei pra ele. Pausei o movimento. Sua face branca se desequilibrava e seu corpo caía do muro, feito uma fruta madura, fragilidade que se espatifa no chão. Pulei até ele - estirado na grama. Mal consegui segurar o riso. Não que eu achasse engraçado, mas o nervosismo misturado com todo o antes fez meu corpo reagir de alguma forma. Só consegui rir. Ele reclamava, um tanto irritado, declarando que não era hora pra rir. E ria também, descaradamente. Deitei ao seu lado. Olhávamos o céu, ambos de barriga pra cima, as mãos se tocavam. O muro - visto de baixo - parecia muito mais alto do que realmente era. Todo o episódio do tombo retirou de mim a vontade de falar, substituindo essa vontade por uma que acabaria com o espaço vago entre nós. Imaginei que a dor da caída era igual àquela minha - uma dor passageira. Respirei aliviado. Não houveram mais risadas. O silêncio tinha novamente instalado-se. Dentro de mim o coração inquieto, a alma insatisfeita com o meu pior defeito - ou qualidade - de não mostrar sentimentos que ainda não estão maduros, de não conseguir falar do que sente, a não ser escrevendo. Acho que eu passava uma imagem de dureza, acho que isso ele também percebia, mas sabia que nada em mim era frio, só as mãos dentro daquela noite gelada. Sem palavras. Ele virou de lado, podendo me ver por completo, virei também e encontrei seus olhos, neles já não havia dor nem marcas, eram olhos incertos, mas inteiros, eram olhos daquele que eu mais senti saudade, eram olhos daquele que mais me fez rir, eram meus próprios olhos refletidos nos dele. Ele perguntou se eu queria um chá de morango, respondi que sim, eu sabia o quanto a grama sofreria com a ausência do seu corpo, mas o deixei ir. Quase amanhecia e imaginei que ele já havia pego o trem de volta para a sua cidade. Tinha esquecido do chá, talvez o tombo tenha lhe roubado a memória. Devia ter deixado pra lá a minha sede e o segurado ali, entre meus braços. Eu sabia da possível queda, claro que sabia, mas errei ao deixar minha voz subitamente muda. Covarde coberto pelos primeiros reflexos de sol. O barulho distante do trem partindo e a minha dor - que não passaria. Escalei novamente o muro, fiquei de pé e gritei o mais alto que pude. Maldita voz que agora saía sem esforços. Não adiantava. Logo eu, que só queria que ele chegasse mais perto, estivesse mais perto, que queria que ele não deixasse as coisas acabarem sem nem ao menos começar. Eu, que nunca me contentei com o pouco dentro de mim. Eu, que sempre quis o risco. O vento cortou meu chamado inútil. Vacilei demais e lá estava o mesmo eu: caído no chão, como uma fruta que caí depois da hora, um morango - podre. No meio do meu próprio sangue a manchar o verde da grama onde ele havia estado, senti um novo pensamento me invadir: o muro, o muro não havia aguentado o segurar de suas vertigens, quando tudo o que ele queria me dizer era que. Exatamente o mesmo que eu queria dizer. O barulho do trem logo deu lugar ao barulho de uma leve sirene de fundo. O muro - visto de cima - quase nem existia. Pensei muito nele enquanto partia em busca de um chá vermelho, igual ao líquido que escorria pelo meu peito, no fim daquele dia gelado, onde sabia-se que o próximo dia também seria frio. Não chorei em nenhum momento. A falta de voz também havia me preparado para que me faltasse também as lágrimas.
No dia seguinte demoliram o muro. O nosso lugar quase deserto, digo quase porque ali, - onde costumávamos ficar - ainda restava uma pequena muda de morangos que crescia. Me contentei com isso, enquanto o muro desabava sobre minhas lembranças.