Faziam planos enquanto a trilha sonora se arrebentava entre guitarras elétricas e tons altissimos. Ela preferia Chico, mas ele insistia em ouvir suas músicas metalizadas. Faziam planos ainda assim. Uma mochila, um país distante, os dois juntos. As bagunças internas misturadas, a cozinha imunda pelos restos de comidas levemente aquecida. Ela não tinha cabelos vermelhos e ele não vestia preto. Tinham caído exatamente no mesmo buraco. Uma língua estrangeira demais pra nacionalidade imperfeita deles. Faltaria comida para o gato e ela só vestiria as camisas dele. A bagagem seria extraviada na ida, ficaria perdida em um banco de caminhão onde de carona passaram. Passariam frio ao chegar na pensão da mulher de branco. Tomariam incontáveis sopas de cogumelos e rúcula. Rúcula seria o título de um dos primeiros textos publicados no jornal local, pela autoria conjunta deles. As vozes ficariam cada vez mais roucas pelo excesso de nicotina, whisky e karaokês nos finais de semana. Se perderiam no metrô e chegariam em casa molhados da chuva. Ela esperando ele para assistir um filme água com açucar e ele vidrado na tela pelos filmes de Hitchcock. No natal vestiriam amarelo, pra fugir das tradições. Faziam planos e mais planos, um futuro todo pela frente. Fariam uma tatuagem juntos, ela riria e ele agarraria-se na poltrona do cafofo com as paredes pichadas. Brigariam mil vezes e fariam as pazes embaixo das tempestades de verão. As guitarras elétricas continuariam a berrar, Chico continuaria a embalar os sonos e as noites de amor no chão frio. Tinham lá seus vinte anos e as costas carregadas de sonhos. Faziam planos de viver para sempre juntos - mesmo ela não acreditando no "sempre" - tão diferentes. A trilha sonora mudaria de momento em momento, as roupas ganhariam estilos, as luzes seriam refletidas em mil facetas, os cenários cada vez mais bonitos. Faziam planos, até o dia em que, sem músicas, sem cores e sem ela, um carro arrebentaria seu corpo de homem frágil, que em silêncio adormeceria ao lado do corpo de mulher forte dela, desamparada no hospital da cidade natal, de onde jamais partiriam.
Continuariam sonhando então.

"A trilha sonora mudaria de momento em momento, as roupas ganhariam estilos, as luzes seriam refletidas em mil facetas, os cenários cada vez mais bonitos."
ResponderExcluirLindooo, frases ótimas, citações perfeitas...