Era mais uma daquelas semanas lotadas de coisas para se fazer. Sem mesmo saber o que - porque. Ela atravessou a rua, pediu para que eu a seguisse. Fitei seu vestido rasgado e imediatamente retirei da mochila uma agulha e um fio para costurá-lo. Pedi para que o tirasse e - sem muita habilidade - eu tentei ajudá-la, eu tinha mesmo essa mania de tentar consertar as coisas. Pudesse eu dar pontos em seu coração rasgado, no meu próprio. Lembro que já tinha sofrido com rasgos e furos, e pra vestir novamente aquilo que eu queria tive que me virar pra deixar tudo em ordem- não pense você que foi fácil. Fui então tecendo aos poucos, lembrando como se fazia - sem lembrar de nada. Estava frio, ela tremia e chorava. Seu corpo nu diante dos meus olhos, uma esquina solitária, uma camada de dores nos separando. De longe ouviámos os barulhos dos carros, o tocar dos telefones públicos, o estralar dos cacos de vidro em atrito com o cimento. Ela se encostou no portão de uma velha casa pra esperar minha boa ação de consertar-um-vestido-e-acabar-com-um-sofrimento. Meus dedos cansados de espetar a agulha no tecido leve, meus olhos cansados de não poder olhar além da espessura fina que anteriormente lhe cobria o corpo. Estava claro pra mim que aquele era o momento errado pra entrar em sua vida. Estava claro também que a imaginação dela era bem maior que a minha, o vestido tinha contornos horríveis de exagero, do qual eu não fazia parte. A impressão que eu tinha era que jamais conseguiria terminar de costurar. E que ela não falasse do meu egoísmo naquele instante, que ela nem contasse a história de como ficara assim. Já não sabia o que pensar enquanto nas mãos a agulha movia-se automaticamente, sem muito propósito, sem a motivação inicial. Era um gesto perdido, um movimento para ocupar a rotina - além de prestar um grande favor. Não fazia sentido sentir coisas assim, e por isso sentia. Não fazia sentido falar a verdade - mas felizmente eu não sabia mentir.
Naquele dia, o congestionamento interno, o retrocesso, a falta do pano que ficou pra trás e a ausência - do todo. Lhe devolvi o vestido - que continuava rasgado.
Não lhe devolvi o coração, que - sem querer - rasgou também o meu.

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