segunda-feira, 15 de outubro de 2012

corra de mim (ou pra mim) agora.


"Confie no amor que te dá confiança, mas confie ainda mais no amor que te dá medo - este é para toda a vida. " - Fabrício Carpinejar


Eu te apavoro, não é? Te encho de coisas que você não sabe explicar, chego muitíssimo perto, te assusto com esse meu jeito meio manso meio urgente meio louco meio estranho meio estabanado demais. Eu te trago medo, não é? Como se eu fosse a highway que faz você se perder, dando a sensação que você está sempre na contramão, fora de rumo. Como se eu fosse as ondas do Hawaii que tu não sabe se pode dropar. Eu te assusto, não é? Porque te espero na chuva enquanto você pinta o sol, tentando se desvincular de qualquer tentativa minha de entrar pela janela do seu quarto e é óbvio, porque faço você quebrar as regras e meio que obrigo você esconder as leis embaixo da cama. Você meio que detesta bagunça e é isso que eu represento. Tenho em mim todas as essências pra te causar o caos e quero a toda hora te tirar desse regime que te deixa com fome de vida. Aposto que você tem a impressão de não saber onde está pisando, porque sempre teve muita segurança nos seus sentimentos e tudo o que eu sei fazer é te dar confusões. Te apavoro porque meus sonhos não cabem em potes, porque gosto de fugir pela cidade e tu se engana achando que precisaria colocar muito na mala pra me acompanhar. Concordemos, às vezes sou excesso, danço exageradamente, falo coisas que ninguém entende, digo o que estou sentindo antes-durante-e-depois e isso eu sei, assusta um bocado. Sei também que pareço um pouco ansiosa, lotando sua caixa eletrônica, te escrevendo cartas enormes e tentando de tudo pra você olhar pra mim. Eu te deixo em pânico, não é? Sou muito do agora, do quero-te-ver-hoje-sob-a-luz-da-lua-cheia ou então do oi-estou-no-seu-portão-nesse-exato-momento. Como se você precisasse se esquivar do que eu te causo, do que você não entende e daquela insanidade desmedida que surge quando minhas palavras afetam a sua lógica. Eu te encho de terror porque quero chegar até tua alma ao tocar a sua pele, porque te tiro do lugar e principalmente porque vivo tentando te tirar do chão, te tirar daqui e te dizer que a realidade não basta. E você quase não nota, porque o medo faz a gente fechar os olhos e nem se apresenta como tal, e você quase não percebe porque acha melhor-deixar-isso-pra-lá.  Eu te faço tremer na base, não é? É normal, nada mais que uma reação orgânica&humana, até porque eu sei que pareço mesmo uma parafernália de sentimentos e o escambau. 
Desculpa se estou viajando demais, mas essa foi a melhor resposta que consegui encontrar... Eu te apavoro porque ouso gostar verdadeiramente de você como ninguém e porque só-consigo-acreditar-que-é-tudo-isso-que-nos-leva-adiante. 
Assim é mais fácil justificar as nossas corridas.
(e isso sempre vai me apavorar).

[num dia desses de um ano terminado em número ímpar]

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Hoje eu não queria falar de medos e nem dizer que o mundo tem se enganado com muita frequência quando nos diz como as coisas devem ser. Não queria acabar pensando nessa massa de coisas que nem sei dar nome e nem ouvir meu coração gritando urgentemente por aquilo que eu ainda não conheci e por tudo aquilo que me move, mas que está estacionado em algum lugar que não consta no mapa. Hoje eu não queria ficar tentando descobrir o quando, o onde, o como e muito menos o porque. Tenho minha retina fatigada de tentar enxergar além do tempo e hoje eu não queria forçar o sangue a passear pelas veias, não queria me prender a última coisa que ficou antes do virar da esquina e não queria enfrentar o escuro.
Hoje o que eu queria mesmo era poder voar de verdade.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

um nome não faz perder o sentido, mas o seu, especificamente, altera os meus cinco.

Eu não sei que horas são. Você vai me achar meio maluca se eu te contar os sonhos que ando tendo. O garoto que entrega o jornal já passou. Ainda não me olhei no espelho. Sabe aquele encanto que eu achei que tinha por você? Não era nada disso. (não pare por aqui). Eu sei que pareço um tanto nonsense, um filme experimental sem roteiro, quem sabe? Eu não sei porque diabos as bagunças fazem a gente perder coisas (pessoas?). Eu adorava quando meu fôlego fugia na hora em que a sua voz chegava perto. Acho que hoje não vai chover, talvez no fim da tarde. Eu não sei o que fazer com essa vontade absurda tentando pular do sexto andar do meu peito. Eu já te contei sobre uma das minhas fantasias de estimação? Uma parada de alguns minutos entre o seu silêncio e o meu amor, o espaço vago sendo aos poucos desfeito... nenhum segundo sem te perder de vista, um momento onde eu me jogaria de vez do seu precipício e acabaria presa dentro da sua caixa torácica pra sempre. De quem você quer gostar? Ontem deitei no chão gelado do meu banheiro pra tentar organizar o emaranhado de fios desencapados que tem dentro de mim e o turbilhão de coisas desconexas que me chegam sem remetente. Sempre acabo achando o que não procuro ou procurando o que só chega sem avisos prévios. Ainda não tomei café.  Achei, ao menos, uma brecha enorme no meio do caos que deliberadamente batizei com o nome de: ''minha tranquilidade''. Sua praia fica mesmo tão distante? Eu sempre te acho em mim porque não sei como fazer pra parar de vasculhar as minhas sensações preferidas. Sabe que dia é hoje? Não era ilusão, mesmo que a gente concorde que é disso que a maioria dos poetas são feitos.  Alguém já dizia que uma rosa não perde o seu cheiro se ela tiver um outro nome qualquer.  Um milhão de doláres pelos seus pensamentos, que tal? Não precisa ficar o tempo todinho mostrando o quanto há maturidade em você.  Eu aceito seu jeito sem jeito de dizer que só pode ir até certo ponto, mas não me peça ausência de saudade, por favor. Eu sempre te acho em mim porque vivo voltando para as minhas melhores memórias como se elas fossem um desses lugares que usam de estratégias de conquista (melhorando a comida, diminuindo o preço, destacando a paisagem ou simplesmente ganhando pontos com a diversão que a gente só encontra lá). Como se volta para um tempo em que nada disso fazia diferença? Uma rosa ainda seria uma rosa se fosse chamada de peixe. Você consegue me ver como me via antes?  Queria estar cheia de você (nos dois sentidos).  A torradeira já apitou. Quando o coração palpita pra valer ninguém mais consegue ser tão&somente adulto. Os choques que eu levo me deixam mais alerta. O suco já deve estar gelado. Tudo bem se, às vezes, a gente sentir um tanto de raiva por não conseguir voltar para um tempo em que era difícil comer um pedaço inteiro de pizza de quatro queijos sozinho. Ainda não troquei de roupa. Ninguém vai rir se você me guardar embaixo do travesseiro. Eu sinto falta de quando você me perguntava coisas. Tudo bem se você chorar um pouco antes de se vestir e sair para enfrentar o mundo. Você ainda lembra? Nossas mãos, um dia, não sabiam como ficar longe uma da outra. Sabe aquele encanto que eu achei que tinha por você? Não era nada disso.
Era mais. Sempre foi. Sempre vai ser. (E eu ouso usar essa palavra porque acredito nela mais do que qualquer coisa que dizem pra não acreditar).
Eu não sei que horas são.... mas pra mim agora é sempre cedo.
Volta a dormir.
A realidade já está com a agenda lotada por hoje e isso tudo já não é mais novidade.
 Volta a dormir que é dessa forma que a gente se encontra... que é dessa forma que tudo começa...
e (do nada) termina.

Texto escrito em 2011

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Um pedido pelas nossas formas juntas.


Ao som de "Stars" - The xx

É isso. Se eu pudesse pedir alguma coisa agora seria isso. Você, numa dessas noites de ar fresco, com seus olhos caindo nos meus. Nós dentro do teu carro. A esquina da minha casa. Madrugada. Uma música de "The xx" tocando. Você querendo me beijar. Eu te beijando. É isso. Se eu pudesse pedir alguma coisa agora seria isso.
Você. Você. Você e ninguém mais. Nós. 
Música lenta. Corações acelerados. Verdade. Toques delicados. Calma. Entrega. Estrelas.
Pulo dos medos. Aniquilamento das fugas. Esquecimento do tempo.
Deixando ser possível. Nós.
Eu gostando de você. Teu carro me olhando. Eu querendo beijar a noite de ar fresco. Você beijando a madrugada. A esquina da minha casa tocando. Nós dentro de uma música de "The xx". Você gostando de mim.
Verdade calma. Estrelas aceleradas. Música delicada. Toques lentos. Corações entregues. Caindo meus olhos nos seus. 
É isso. Se eu pudesse pedir alguma coisa agora seria isso. Você e - de todas as formas - a gente gostando da gente. Você e - de alguma forma - nós, numa noite de ar fresco, tocando a felicidade.
Aniquilamento do tempo, pulo das fugas, esquecimento dos medos. 
Sendo possível deixar ser. Nós, numa noite de felicidade fresca, sendo de algumas e de todas as formas. Nós.
Você. Você. Você e mais ninguém.
É isso. Se eu pudesse pedir alguma coisa agora seria isso... exatamente isso.


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Estrangeiros de nós

Revirando o silêncio, sintonizando as estranhezas, pulando em águas turvas e calçando augúrios. A mente inventa cada coisa, meu amigo.  Alaga, enxarca e nos afoga no pouco que a razão oferece, esperando ainda - como troca - que sejamos coerentes, escondendo toda a verdade. E o que é a verdade?
Por poucos segundos a consciência bate na porta e diz que tudo isso não existe. E se nada disso existe, onde foi parar o chão?
Esmagando as teorias, sufocando as práticas, apanhando dos que se dizem certos. Se nada disso existe, quem é capaz de dizer pelo que vale a pena sonhar?
Sonhar talvez seja o melhor que podemos fazer. E sofre quem é sonhador nessa coisa tão cartesiana.
Martelando a imaginação, cometendo suicídios de tudo e rastejando em busca de nada. Estamos presos em uma enorme fantasia e ninguém sabe dizer porquê.
O mundo acabou faz tempo e ninguém sequer se deu conta. Dis-traídos.
Emaranhado de sentimentos criados por uma geração que nunca teve - e nem terá - tal resposta. O nosso medo é descobrir. Fechamos os olhos e em vez de mergulhar para dentro, corremos e esperamos que alguma coisa nos salve. De quem? De mim, de você, deles. Deslocados de lugar algum.
Loucos de fome, de vazios, anfetaminas e escuridão que vêm de duzentas décadas atrás. Enganados. Superficiais. Desconhecidos. Indigentes. É obscuro pensar, companheiro. É incômodo não ter certeza de nada. É estranho não saber quando meio mundo vive dizendo que sabe. Se nada disso existe então somos todos fagulhas de algo inomeável. Somos criação. Iludidos, ilusórios. Irreais. A gente inventa a realidade porque, na realidade, ela não existe. E o que é isso então?
O caos, a ânsia, os monstros, as limitações. Tudo vem de dentro e só se olha aquilo que está fora da janela. A mente não te deixa escapar. É demais. Nascemos com gente gritando na nossa orelha o que deve ser feito.
Encontramos o amor e fizemos o que? Mera fuga. E razão. Ninguém ensina mais a ficar. Somos passagem. Livres demais. Prisioneiros de nós. Banais. E queremos, temos vontade de permanecer em algo. Ser alguém. Temos as nossas sensações brigando o tempo inteiro. O tempo não existe e devora. Encontramos o amor e fizemos o que? Etiquetamos ele. Demos nome àquilo que só devia ser sentido.
Se nada disso existe... estamos sendo devorados? Por quem?
Revirando as identidades, bagunçando as gavetas, procurando por alguma coisa que ninguém sabe o que é. Chegamos perto, mas precisamos alcançar. É tudo coisa da nossa cabeça e precisávamos ser almas para entender aquilo que não se entende. Mais um milhão de décadas e continuaremos sem saber. Aceitamos. Vivemos. Amamos do jeito que sabemos. Burros, cegos e loucos. Retirando da incompreensão toda nossa fonte de vida.
E viver é lindo, mesmo que sejam poucos aqueles que param pra pensar naquilo que não é pensado e que sejam muitos aqueles que se sentem como um trem desgovernado sem ter qualquer indício de onde é que se vai parar.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

resumidamente... eu queria você.


"Eu queria estar agora no meio das suas bagunças, admirando as suas súplicas, fechando os olhos durante suas longas e interessantes pausas de intenção. Queria estar assoprando lentamente seus machucados obtidos durante os nossos pânicos e os nossos tombos nas calçadas tortuosas de ninguém. Queria estar um tanto entrelaçada às suas dúvidas, mas principalmente queria fazer parte das suas melhores e mais absolutas certezas. Queria estar agora com os meus olhos a estacionar na vaga restrita dos seus, com a minha imaginação a correr em alta velocidade por entre seus desejos mais frágeis, parando para satisfazer um a um com toda a paciência do mundo. Queria estar a usar toda a minha caixa de lápis de cor para pintar a sua vida com a intensidade de uma tinta que nunca sai da roupa. Queria estar presente nas confissões que você coloca dentro da fronha do seu travesseiro, te ajudando a entender a ventania que a gente faz. Queria estar na estrada por onde seus sonhos caminham e queria ser a parada onde você mata a sua fome de amor. Queria estar a fazer parte dos seus dias como um bom presságio, como uma notícia que te faz pular de alegria ou como a melhor previsão do teu horóscopo. Queria estar a morrer de saudades suas só por você ter ido buscar água no cômodo ao lado e ser a pessoa mais feliz do mundo por ver você voltar, sem qualquer desvio, para o meu abraço tímido. Queria te cuidar, te proteger do vazio, e - mesmo sendo pequenininha -, queria expulsar qualquer coisa que possa te fazer mal. Queria lotar teu estômago daquelas borboletas loucas que os poetas falam tanto, para que elas pudessem dançar em completa sintonia com as minhas. Queria uma bicicleta mais veloz para chegar mais cedo na porta da sua casa e ter seus cabelos a enroscar nos meus dedos frios do inverno que paira sobre a rua quinze de novembro. Queria que você abrisse as janelas dos seus segredos, dos seus traumas e dessa sua alma tão delirante por vida. Queria estar agora embaixo do teu céu a cantar Chico Buarque como quem vive em pleno Rio de Janeiro de mil novecentos e setenta e três. Queria estar no meio da sua chuva, do lado das suas angústias e em cima da sua cama. Queria estar dentro do teu silêncio, a mergulhar nos seus medos de criança e te segurando forte pra não cair da escada. Queria ser as palavras que você nunca disse pra ninguém e a sua música preferida que toca constante em sua cabeça. Queria estar a sorrir com uma mensagem sua no meu telemóvel às quatro e quinze da madrugada. Queria ser a carta com qual você vira o jogo, levando não só as fichas, mas levando essa minha loucura feita sob medida pra te fazer voar. Queria estar sempre sorrateiramente invadindo os seus pensamentos mais doidos e as suas memórias mais doces. Queria estar escutando James Morrison e bebendo café na sua xícara preferida enquanto você lê qualquer coisa que contraia levemente os seus lábios. Queria ser uma das melhores coisas a acontecer na tua história surreal contra o óbvio, ser teu orgulho contido por ter posse dos meus sentimentos fabricados para poucos. Queria ser o furacão que te vira do avesso, te tira do tédio e que, ao mesmo tempo, te faz a pessoa mais completa do mundo. Basicamente, e mais do que tudo, eu queria ser aquela a me alojar do lado esquerdo e na altura do seu peito quente em vez de ser aquela que precisar ir, mais uma vez, embora. Eu queria você, não por precisar de alguém, mas por ser  infinitamente viciada em despertar sorrisos na maré desse seu olhar, que sem querer, não cansa de me engolir".

Texto escrito em 2011

domingo, 26 de fevereiro de 2012

só essa coisa inomeável escorrendo pela vidraça.


Ao som de Birdy - Shelter

Nenhuma posição é boa o suficiente pra esquecer. A voz - quando existe - sai frágil como um sopro. Imagine um mar extremamente agitado de silêncio. As portas não abrem, e quando abrem não mostram quase nada lá de fora. O ponteiro crava pequenas agulhas no corpo deitado na cama. Os pensamentos machucam. Na sua frente um borrão gigante de nada. Não visualiza futuros. E o presente onde está? Mais fácil e dolorido lembrar - ainda - o ontem atípico e - infelizmente - veloz.

Estagnação.
Fica repetindo mentalmente que não pode desperdiçar nenhum segundo... e desperdiça segurando forte o travesseiro. Pensa em uma montoeira de coisas sem pensar em nada propriamente dito. Não tem vontade nenhuma de saber sobre a vida dos outros (só tem um pequeno interesse ingênuo pelos poucos com quem divide esperanças - estariam se alimentando direito?),  pudesse não teria vontade nem de saber da sua própria respiração.  Como se estivesse muito longe de tudo, no meio de um viaduto deserto às quatro e vinte e um, na madrugada de uma segunda-feira em alguma dessas cidades perdidas que ninguém sabe o nome.
Ideias remotas. Está ali, mas não está em lugar algum.
Exaustão no departamento que cria histórias para preencher buracos feitos pelo tédio. Não se engana tentando inventar alguma coisa diferente só pra ter o que contar. Só o que for real, dessa vez,  porque projetores vão pro saco na primeira falha elétrica.  Fica a parede vazia... pra onde vão as imagens? Pra dentro, certamente.
Aquele sentimento, sim, ele realmente existiu... e armazenado tem contribuído para tudo isso, ou para nada isso, como queira. No jardim tudo parece estar bem, muitos até parabenizam pela vida aparentemente boa que se leva. Não desmentiria, as coisas não são nem de longe ruins. Só existe alguma coisa que mesmo sendo (re)mexida de um lado para o outro continua imóvel. Não existe nenhuma situação que preocupa de fato, só está com dificuldade de encontrar qualquer coisa no meio daquele tudo disfarçado de nada e vice-versa.
De repente para na ponta do mundo e não sabe se pula, se recua pra dentro ou se começa a correr contra o movimento de esfera louca, azul e estranha que virou a terra.
Palavras sem sentido, a cozinha vazia. Os móveis cheios de pó. As janelas? Novamente fechadas, novamente esperando qualquer avanço natural das coisas, esperando a coragem do que é pra ser finalmente aparecer, esperando qualquer coisa dessas finalmente acontecer. O choro nem se atreve a vir, envergonhado por não saber porque quer existir e culpando-se por não ter bons motivos para escorrer pelo rosto de bochechas que já foram, um dia, coradas sem querer.
...  a não ser que a falta seja um bom pretexto. 
Inércia. 
Tantas coisas vagas que não ganham sequer uma explicação, um título, uma palavra. Ausências de pessoas que nem sequer existiram, de pessoas que marcaram fundo e ausências como resultado de tantos goodbyes e tantas fugas.
Coisas sem sentido, tentativa inútil de descrever.
No meio de um sorriso qualquer, lembra de coisas e odeia o fato de ter uma memória tão detalhista e um coração tão lento para desfechos de coisas tão intensas como aquele-abraço-depois-daquele-beijo. Nem dor, nem sofrimento, nem tristeza... só essa coisa de não achar um bom lugar pra entender, pra voltar, pra ficar, pra dormir. Só a sensação de ter imergido dentro do próprio corpo, sem falas, sem movimentos, sem forças. Só a garganta feito um nó, sem gritos, sem desesperos, sem. Um caminho imaginário percorrido da cama desfeita até o centro de algum-nenhum endereço existente no mapa. Pela cortina que não balança, pela lâmpada do abajur que acabou de queimar, pela ausência de sons, pela boca estática que assiste o teto,  pelo narrador que ninguém sabe quem é, pelo leitor que também não sabe, por nós, por todas essas coisas sem significado e sem explicação, por todas essas coisas com muito significado que, por consequência, não precisam de explicação. E nem começou a falar das chuvas e dos medos de quando era criança. Debruçando-se no esparramado de vagas inquietas. O nada vagando na imensidão do tudo - repetição. O tudo que não visualiza, mas que ainda sente... e o nada, ah! o nada que sente até sentir qualquer coisa nova e limpa que faça finalmente tudo voltar a girar, que faça finalmente tudo voltar a ser, que faça finalmente tudo voltar a...
Finalmente adormece.

[Escrito em algum dia desses de dois mil e onze]

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

(ins) p i r a d a.

Você se esconde do mundo? Eu preciso parar de enxergar essas suas coisas que nem você enxerga em você. Eu invento o mundo? Estou aqui, contando as gotas que caem do céu. Logo, logo eu vou precisar reaprender a dormir naquele determinado horário, sem ter vontade de chorar. A música ainda ecoa pelas quatro paredes do meu quarto, por todas as camadas do meu coração ignorado. Você janta, dorme no sofá e deixa de lado o meu sentir. Eu tropeço no passado quase sempre, eu esbarro no seu sorriso no canto do meu pensamento. O tempo berra comigo. Você dirige seu carro em direção a outras ruas e eu me acabo escutando Marisa Monte. Minha coca-cola perdeu o gás, a minha investigação ficou pela metade, os textos todos ficaram impublicáveis. Você tem certeza disso? Você faz aquela expressão que eu adoro e eu não estou vendo. Eu preciso parar de inventar motivos. Depois da primeira vez que se vê, não é fácil fechar os olhos. O meu medo. O seu medo fazendo você engolir por inteiro os meus exageros verdadeiros. É assim mesmo ou tem que ser? Você rega as plantas e só olha pra trás se ouvir passos mais pesados que os meus. Um feitiço que ultrapassou a mordida na maça e que ficou alojado nas minhas vontades. Eu caminho do seu lado a alguns metros de distância. Eu faço poesias sem porque e você namora tradições embaixo do cobertor. Você é coerente demais, chego até gostar. Eu não sei esquecer batimentos cardíacos descompassados, gosto até chegar. Você curte todas essas coisas aí e eu não faço sucesso nenhum, não tenho um hit no topo da billboard, não tenho um metro e setenta e três e nunca escrevi um roteiro que hollywood quisesse comprar. Você quer amor. Minha imaginação erra muito? Eu quero roda-gigante, chuva e beijo com gosto de cereja. Os vizinhos são só os vizinhos. Sua roupa está em cima da cama, devidamente passada e seu perfume espera ansiosamente por você. Eu bebo café até as cinco da tarde e penso demais nas coisas. Você segue a sua vida e eu nem vejo. Eu sigo a minha vida porque ela não para pra eu poder te ver passar. Falo demais e fico desconcertada, você é fã da praticidade, do esquentar no microondas e do blackberry. Fico colorindo os diálogos e as comidas e as minhas botas com papéis picados. Você achando graça. Invento esconderijos, vou parar dentro da caixa do colchão novo, do lado da chaminé bem em cima do telhado, lá no fundo dos meus olhos, quase ao ponto de chegar a me ver no fundo dos seus também. Eu me comporto de um jeito fácil pra você me achar esquisita demais pra você. E a gente parece. Você vai, eu fico, até dar oito e meia e eu começar a nova folha do meu livro sem marcador de páginas. Eu odeio a zona de conforto, e eu amo ficar na cama. Você ama a zona de conforto, e você odeia ficar na cama. Não comigo, não nesse mês, não com essa minha cara de quem quer realizar todos seus sonhos secretos. A bola caiu do outro lado do muro, o correio está em greve e a maioria dos contatos do meu celular foram apagados. Eu sou loucura, chiclete, avião, viagem para Paris. Você quer embarcar, mas prefere guardar as passagens na gaveta. Não sou difícil, sou um turbilhão bem calmo, sou o clichê cinematográfico do qual você gosta de ver, mas que nem tem coragem pra viver. Você se esconde do mundo? Porque eu sou capaz de inventar um totalmente novo só pra continuar nele, mesmo sabendo que nem eu e nem você somos daqui, mesmo sabendo que chegamos em uma nave espacial com formato de rosquinha coberta com chocolate granulado colorido e que não há nada que eu diga que te lembre o que fomos , - ou o que poderíamos ter sido, ou ainda o que poderíamos ser - naquele nosso planeta.



É cedo e ainda chove. Preciso dormir e acordar. Não dormir acordada, ao menos dessa vez, pra parecer alguém real.



[2011]

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

pelo infinito e além - um coração de gás.



Um coração feito aqueles balões de ar comprimido que voa sozinho, alto e desgovernado. Um coração que pulsa para fora como se quisesse ultrapassar os limites, sempre querendo subir. Quebrando as barreiras do existente e do - como muitos dizem - aceitável. De várias cores, de várias formas. Apesar do sopro ser incolor, ele é lotado da substância que faz encher, e é leve, muito leve, sem complicações desnecessárias. Com vontades próprias, que vai, que se mistura com o ar, que no vento dá a volta, que na imensidão se perde, mas que continua existente. Cheio de impulso. Não estoura fácil porque é feito de verdades e recoberto por sonhos. É cheio de figuras de linguagem, de exageros ficcionais e licenças poéticas. Cheio de dúvidas, certezas no sentir e mãos que estapeiam a razão. Um coração que luta contra a gravidade, contra - ou a favor - na confusão, que luta contra o conformismo e o automático. Decorado, pintado à mão, coberto de melodias e filmes em projetor. Escorrega no arco-íris que, não raramente, encontra no caminho. Enfrenta tempestades duríssimas e logo se protege nos raios de sol, tentando não se queimar. Sempre indo. Tromba em nuvens de ilusão, mas se delicia com o algodão branquíssimo que fica grudado nele. Muitos olham para cima e poucos o enxergam. Um pontinho facetado na imensidão. Tão pulsante. No meio de partículas multicoloridas vistas contra luz. Letras, símbolos e ideias malucas que navegam no seu interior. Rostos, momentos, memórias e beijos doces. Um coração que não é ar, que é mais, quase um excesso. Uma loucura tranquila, (in)contida. Um coração que arrisca, que desbrava lugares desconhecidos, emoções que não saberia definir e sentimentos ilimitados, sem nome. Sonhador. Por vezes parece indiferente ou silencioso demais, mas sensibilidade existe aos montes dentro dele, e grita mesmo que ninguém ouça. Um coração cheio do estado da matéria que não tem forma e nem volume definidos, que consiste em uma mistura de jeitos, movimentos dançantes sobre suas coisas preferidas, e sorrisos ao tão certo acaso que traz encontros e alegrias. Um coração de gás. Uma coleção de olhares, de toques, de cheiros e um mundo inteiro de sensações por dentro. Armazena gente de todos os tipos e peculiaridades, mas tem lugares ocupados apenas por aquelas pessoas especiais - não são muitas, admite, mas que ficam por inteiro e pra sempre. Não explode, embora muitas vezes tenha vontade. Vontade de transbordar. Vontade de deixar o gás vazar para cair por cima de todo o mundo e abraçar as cidades e as pessoas com seu jeito tão bobo de ser. Às vezes sente-se sozinho, meio rídiculo por rodear catedrais e casas sem poder entrar, às vezes se perde nas rotas indefinidas, mas segue no caminho - sem nem ao menos saber que caminho é esse. Só vai. De tão (in)constante se adequa as mudanças climáticas. Um coração que só quer ser e sentir, sem parar. Que gosta do verbo gostar. Foi feito livre, mas - digo isso aos corajosos - existe o jeito certo de tê-lo. Alguém sempre há de descobrir como segurá-lo pelo fio, como manté-lo um pouco mais perto. Um coração que sabe ficar, mas principalmente um coração que de tão coração vai fazer questão de fazer voar com ele. Levar para um passeio ou para um infinito além de qualquer história. E adivinhe? Um coração - sem querer poetizar - que simplesmente ama.

sobre canções.


Você me mostrou músicas que eu aprendi a cantar e que agora fazem parte do meu repertório. Fez das músicas que eu já sabia o ritmo, melodias que levam meus pensamentos diretamente pra você. Me fez odiar algumas canções porque eu não era a única a ouvi-las do seu lado. Me fez parar de ouvir outras porque não notava que eu lembrava de você quando as escutava. Me fez procurar letras que remetessem a nossa história, e me fez chorar quando o que elas diziam era exatamente o que eu queria ouvir de você. Adivinhou minhas músicas preferidas e começou a cantar como se nada estivesse acontecendo, porque afinal, aquelas também eram as suas preferidas. Você me trouxe a vontade de gravar algumas em um cd e colocar pra tocar no seu carro quando estivéssemos indo pra qualquer lugar. Me fez querer apertar o stop e sair correndo quando dizia que aquela te lembrava alguém que não era eu. Me fez sorrir quando parecia saber exatamente o que elas significavam. Me deixou triste quando não soube como me colocar na sua lista de reprodução diária e me alegrou quando disse que mesmo assim eu teria um espaço nela. Me fez descobrir novos cantores e também a continuar gostando dos que só eu conheço. Me fez querer dividir com você aquelas minhas canções secretas das quais eu morro de ciúmes. Cantarolou comigo quando tudo o que ouvíamos era o som dos nossos corações acelerados. É, você fez uma renovação no que eu andava escutando. E sim, você fez uma renovação no que eu andava sentindo. 
[28 de agosto de 2011]