domingo, 26 de fevereiro de 2012

só essa coisa inomeável escorrendo pela vidraça.


Ao som de Birdy - Shelter

Nenhuma posição é boa o suficiente pra esquecer. A voz - quando existe - sai frágil como um sopro. Imagine um mar extremamente agitado de silêncio. As portas não abrem, e quando abrem não mostram quase nada lá de fora. O ponteiro crava pequenas agulhas no corpo deitado na cama. Os pensamentos machucam. Na sua frente um borrão gigante de nada. Não visualiza futuros. E o presente onde está? Mais fácil e dolorido lembrar - ainda - o ontem atípico e - infelizmente - veloz.

Estagnação.
Fica repetindo mentalmente que não pode desperdiçar nenhum segundo... e desperdiça segurando forte o travesseiro. Pensa em uma montoeira de coisas sem pensar em nada propriamente dito. Não tem vontade nenhuma de saber sobre a vida dos outros (só tem um pequeno interesse ingênuo pelos poucos com quem divide esperanças - estariam se alimentando direito?),  pudesse não teria vontade nem de saber da sua própria respiração.  Como se estivesse muito longe de tudo, no meio de um viaduto deserto às quatro e vinte e um, na madrugada de uma segunda-feira em alguma dessas cidades perdidas que ninguém sabe o nome.
Ideias remotas. Está ali, mas não está em lugar algum.
Exaustão no departamento que cria histórias para preencher buracos feitos pelo tédio. Não se engana tentando inventar alguma coisa diferente só pra ter o que contar. Só o que for real, dessa vez,  porque projetores vão pro saco na primeira falha elétrica.  Fica a parede vazia... pra onde vão as imagens? Pra dentro, certamente.
Aquele sentimento, sim, ele realmente existiu... e armazenado tem contribuído para tudo isso, ou para nada isso, como queira. No jardim tudo parece estar bem, muitos até parabenizam pela vida aparentemente boa que se leva. Não desmentiria, as coisas não são nem de longe ruins. Só existe alguma coisa que mesmo sendo (re)mexida de um lado para o outro continua imóvel. Não existe nenhuma situação que preocupa de fato, só está com dificuldade de encontrar qualquer coisa no meio daquele tudo disfarçado de nada e vice-versa.
De repente para na ponta do mundo e não sabe se pula, se recua pra dentro ou se começa a correr contra o movimento de esfera louca, azul e estranha que virou a terra.
Palavras sem sentido, a cozinha vazia. Os móveis cheios de pó. As janelas? Novamente fechadas, novamente esperando qualquer avanço natural das coisas, esperando a coragem do que é pra ser finalmente aparecer, esperando qualquer coisa dessas finalmente acontecer. O choro nem se atreve a vir, envergonhado por não saber porque quer existir e culpando-se por não ter bons motivos para escorrer pelo rosto de bochechas que já foram, um dia, coradas sem querer.
...  a não ser que a falta seja um bom pretexto. 
Inércia. 
Tantas coisas vagas que não ganham sequer uma explicação, um título, uma palavra. Ausências de pessoas que nem sequer existiram, de pessoas que marcaram fundo e ausências como resultado de tantos goodbyes e tantas fugas.
Coisas sem sentido, tentativa inútil de descrever.
No meio de um sorriso qualquer, lembra de coisas e odeia o fato de ter uma memória tão detalhista e um coração tão lento para desfechos de coisas tão intensas como aquele-abraço-depois-daquele-beijo. Nem dor, nem sofrimento, nem tristeza... só essa coisa de não achar um bom lugar pra entender, pra voltar, pra ficar, pra dormir. Só a sensação de ter imergido dentro do próprio corpo, sem falas, sem movimentos, sem forças. Só a garganta feito um nó, sem gritos, sem desesperos, sem. Um caminho imaginário percorrido da cama desfeita até o centro de algum-nenhum endereço existente no mapa. Pela cortina que não balança, pela lâmpada do abajur que acabou de queimar, pela ausência de sons, pela boca estática que assiste o teto,  pelo narrador que ninguém sabe quem é, pelo leitor que também não sabe, por nós, por todas essas coisas sem significado e sem explicação, por todas essas coisas com muito significado que, por consequência, não precisam de explicação. E nem começou a falar das chuvas e dos medos de quando era criança. Debruçando-se no esparramado de vagas inquietas. O nada vagando na imensidão do tudo - repetição. O tudo que não visualiza, mas que ainda sente... e o nada, ah! o nada que sente até sentir qualquer coisa nova e limpa que faça finalmente tudo voltar a girar, que faça finalmente tudo voltar a ser, que faça finalmente tudo voltar a...
Finalmente adormece.

[Escrito em algum dia desses de dois mil e onze]

Um comentário:

  1. Dolorido, realista - argh! - e genial.
    "... a não ser que a falta seja um bom pretexto."

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