sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

(ins) p i r a d a.

Você se esconde do mundo? Eu preciso parar de enxergar essas suas coisas que nem você enxerga em você. Eu invento o mundo? Estou aqui, contando as gotas que caem do céu. Logo, logo eu vou precisar reaprender a dormir naquele determinado horário, sem ter vontade de chorar. A música ainda ecoa pelas quatro paredes do meu quarto, por todas as camadas do meu coração ignorado. Você janta, dorme no sofá e deixa de lado o meu sentir. Eu tropeço no passado quase sempre, eu esbarro no seu sorriso no canto do meu pensamento. O tempo berra comigo. Você dirige seu carro em direção a outras ruas e eu me acabo escutando Marisa Monte. Minha coca-cola perdeu o gás, a minha investigação ficou pela metade, os textos todos ficaram impublicáveis. Você tem certeza disso? Você faz aquela expressão que eu adoro e eu não estou vendo. Eu preciso parar de inventar motivos. Depois da primeira vez que se vê, não é fácil fechar os olhos. O meu medo. O seu medo fazendo você engolir por inteiro os meus exageros verdadeiros. É assim mesmo ou tem que ser? Você rega as plantas e só olha pra trás se ouvir passos mais pesados que os meus. Um feitiço que ultrapassou a mordida na maça e que ficou alojado nas minhas vontades. Eu caminho do seu lado a alguns metros de distância. Eu faço poesias sem porque e você namora tradições embaixo do cobertor. Você é coerente demais, chego até gostar. Eu não sei esquecer batimentos cardíacos descompassados, gosto até chegar. Você curte todas essas coisas aí e eu não faço sucesso nenhum, não tenho um hit no topo da billboard, não tenho um metro e setenta e três e nunca escrevi um roteiro que hollywood quisesse comprar. Você quer amor. Minha imaginação erra muito? Eu quero roda-gigante, chuva e beijo com gosto de cereja. Os vizinhos são só os vizinhos. Sua roupa está em cima da cama, devidamente passada e seu perfume espera ansiosamente por você. Eu bebo café até as cinco da tarde e penso demais nas coisas. Você segue a sua vida e eu nem vejo. Eu sigo a minha vida porque ela não para pra eu poder te ver passar. Falo demais e fico desconcertada, você é fã da praticidade, do esquentar no microondas e do blackberry. Fico colorindo os diálogos e as comidas e as minhas botas com papéis picados. Você achando graça. Invento esconderijos, vou parar dentro da caixa do colchão novo, do lado da chaminé bem em cima do telhado, lá no fundo dos meus olhos, quase ao ponto de chegar a me ver no fundo dos seus também. Eu me comporto de um jeito fácil pra você me achar esquisita demais pra você. E a gente parece. Você vai, eu fico, até dar oito e meia e eu começar a nova folha do meu livro sem marcador de páginas. Eu odeio a zona de conforto, e eu amo ficar na cama. Você ama a zona de conforto, e você odeia ficar na cama. Não comigo, não nesse mês, não com essa minha cara de quem quer realizar todos seus sonhos secretos. A bola caiu do outro lado do muro, o correio está em greve e a maioria dos contatos do meu celular foram apagados. Eu sou loucura, chiclete, avião, viagem para Paris. Você quer embarcar, mas prefere guardar as passagens na gaveta. Não sou difícil, sou um turbilhão bem calmo, sou o clichê cinematográfico do qual você gosta de ver, mas que nem tem coragem pra viver. Você se esconde do mundo? Porque eu sou capaz de inventar um totalmente novo só pra continuar nele, mesmo sabendo que nem eu e nem você somos daqui, mesmo sabendo que chegamos em uma nave espacial com formato de rosquinha coberta com chocolate granulado colorido e que não há nada que eu diga que te lembre o que fomos , - ou o que poderíamos ter sido, ou ainda o que poderíamos ser - naquele nosso planeta.



É cedo e ainda chove. Preciso dormir e acordar. Não dormir acordada, ao menos dessa vez, pra parecer alguém real.



[2011]

2 comentários:

  1. Anônimo13:04

    maravilhoso

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  2. "Eu sou loucura, chiclete, avião, viagem para Paris. Você quer embarcar, mas prefere guardar as passagens na gaveta. Não sou difícil, sou um turbilhão bem calmo..." Perfeito, perfeito, perfeito. Um dos melhores, com certeza.

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