quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

dédalo.

O ano não é esse. As roupas de ontem hoje estão sujas. A gente ainda não se conheceu. É um fim de semana aleatório e eu estou na praia. Você está num show do The Smiths, mas ainda não sabe se curte o som dos garotos. Havia acabado de chover. Eu penso em algo como búfalos e verdades. Você ainda não sabia mentir. A história não é agora. Ainda não existe a nossa sala. Eu caminho pra dentro de um bar, mas ainda não sei beber. Você continua ensopada no meio da multidão se perguntando o que fazer. As palavras não são essas.  Eu me pergunto se é assim a solidão. Você se sente absurdamente sozinha enquanto toca "Asleep". Havia quatro dólares no meu bolso. Seu rímel escorria. A gente ainda não tinha lido nenhum livro que realmente prestasse. Você ainda costumava saber quem era. Eu peço pro garçom mudar a estação da rádio. Os olhos de ontem hoje são um tanto temerosos. Não era verão. Você chama um táxi. Eu já estou embaixo do chuveiro. Ainda não ouvimos a música que estava prestes a virar sucesso. O trânsito está parado. Você treme de frio. Eu pego uma coberta. Temos vontade de chorar. A hora não é essa. Tomo um chá. Você sobe as escadas. Estou pensando em ligar pra alguém. A gente ainda não se entregou de verdade. Você perdeu seu celular enquanto a banda tocava. O tempo ainda não passava tão rápido. A gente ainda não costumava se preocupar tanto com os noticiários. A vida de ontem hoje já é consideravelmente dessemelhante. Eu tinha anotações num caderno de capa dura. Você curtia colecionar selos e discos. A gente ainda não entendia bem esse lance de dor. Você sonhava em encontrar o cara dos seus sonhos. Eu já tinha alguns graus de miopia. Ainda não existia mágoa. Eu apago o abajur e tento dormir. Você sente dor de cabeça. A gente ainda não era fã do pós modernismo e pesadelos não eram tão frequentes na nossa cama. Eu não consigo dormir. Você canta baixinho alguma coisa.  A gente ainda não precisava fugir. O dia não é esse. Eu ainda gostava daquilo que todo mundo gosta. Você ainda imaginava castelos pintados com lápis de cor. A gente ainda não sabia o que era traição. A semana não é essa. Eu comia leite condensado direto da lata. Você ainda não sabia o que era gozar. Os sonhos de ontem hoje já estão grandinhos e um pouco pálidos. Eu finalmente pego no sono. Você desmaia na sua casa de cidade grande. Eu tenho uma alucinação. Você tem um delírio. O instante não é esse momento. A gente sonhava bem mais. Eu vejo filhotes de cachorros lambendo meu rosto. Você se vê vestida de noiva. O mar por trás da janela ainda brincava calmamente. Tua televisão ainda passava filmes em preto e branco. A gente ainda não entendia os erros do mundo e nem sabíamos o quão humanos éramos. O ontem ainda não era hoje. A gente ainda não se conhecia. O fim não é assim. Haveria um começo.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

III

Cure-se desse sentimento. Tu bem sabes que ele não leva a nada. Desinfecte-se de tudo o que ousou dar, mas não deu. A vida, pequena, só se faz nova se nos permitirmos a despedidas. Eu bem sei que não é simples, mas - num determinado momento - é preciso decidir mudar. Esqueças daquilo que te fez chorar e fiques apenas com os minutos contornados de sol. Siga em frente, por mais banal que isso te pareças, é sempre o que deves ser feito. Limpe-se de antigas expectativas e promessas. Esvazie essa tua retina que, acredito eu, viu muita gente indo embora e pouca gente sabendo ficar. Não culpes o céu, nem os erros de alguém. Fiques apenas com a certeza que é assim que tem que ser. Teimosia, na maioria das vezes, só te incriminas de crimes que tu nunca fez. Enfrente-se e perguntes a ti mesma qual é o rumo que tu queres tomar. Prantear debruçada ao passado és como perder de vista todas as oportunidades singelas que acenam a cada nova esquina. Permita-se olhar o antes com carinho, mas não deixes escapar nada que estás por vir. A vida, pequena, é saber se reconstruir sem deixar nenhum pedaço importante jogado por aí. Logo tu verás que fomos feitos pra recomeçar, e convicta faça-o sabendo que nada foi ou será em vão. Cure-se de ti e voltes a dançar sob as estrelas, pois elas nunca se apagam.
 Foi o que eu fiz.

II

Se tu conheces um pouco de suas fraquezas, então sabes que amor é tempo. Tempo de lembrar e também de esquecer. Sim, pois até o amor deves ser esquecido. Pra nunca deixar de ser. Se tu já sofrestes de saudades, então sabes que não se deve ir até o fundo se não tens o propósito de levar junto memórias feitas pra durar uma vida toda. Sim, porque se tu amas uma vez, então isso não tem fim. Haverão ainda novas embarcações e teus pedidos ofegantes para que recomeces, para que acumules amores, e para que nunca os deixe. Se tu já tiveras a sorte de sentir o mundo inteiro dentro do peito ao tocar o rosto de alguém, então tu sabes do que falo. E quantas pessoas tu poderias dizer que amou? Se tu bem sabes, tudo isso não é fácil definir em palavras, mas em brilhos. Se tu fosses olhar dentro das lembranças, saberia quem é que se fez guardar. Se em um dos dias sentado à beira do lago tu sentiu-se infinito, então acredites em teu coração. Amor é tempo. Tempo de levar junto e tempo de saber deixar em ti tudo que, mesmo sem dizer, desejou ficar.