Um coração feito aqueles balões de ar comprimido que voa sozinho, alto e desgovernado. Um coração que pulsa para fora como se quisesse ultrapassar os limites, sempre querendo subir. Quebrando as barreiras do existente e do - como muitos dizem - aceitável. De várias cores, de várias formas. Apesar do sopro ser incolor, ele é lotado da substância que faz encher, e é leve, muito leve, sem complicações desnecessárias. Com vontades próprias, que vai, que se mistura com o ar, que no vento dá a volta, que na imensidão se perde, mas que continua existente. Cheio de impulso. Não estoura fácil porque é feito de verdades e recoberto por sonhos. É cheio de figuras de linguagem, de exageros ficcionais e licenças poéticas. Cheio de dúvidas, certezas no sentir e mãos que estapeiam a razão. Um coração que luta contra a gravidade, contra - ou a favor - na confusão, que luta contra o conformismo e o automático. Decorado, pintado à mão, coberto de melodias e filmes em projetor. Escorrega no arco-íris que, não raramente, encontra no caminho. Enfrenta tempestades duríssimas e logo se protege nos raios de sol, tentando não se queimar. Sempre indo. Tromba em nuvens de ilusão, mas se delicia com o algodão branquíssimo que fica grudado nele. Muitos olham para cima e poucos o enxergam. Um pontinho facetado na imensidão. Tão pulsante. No meio de partículas multicoloridas vistas contra luz. Letras, símbolos e ideias malucas que navegam no seu interior. Rostos, momentos, memórias e beijos doces. Um coração que não é ar, que é mais, quase um excesso. Uma loucura tranquila, (in)contida. Um coração que arrisca, que desbrava lugares desconhecidos, emoções que não saberia definir e sentimentos ilimitados, sem nome. Sonhador. Por vezes parece indiferente ou silencioso demais, mas sensibilidade existe aos montes dentro dele, e grita mesmo que ninguém ouça. Um coração cheio do estado da matéria que não tem forma e nem volume definidos, que consiste em uma mistura de jeitos, movimentos dançantes sobre suas coisas preferidas, e sorrisos ao tão certo acaso que traz encontros e alegrias. Um coração de gás. Uma coleção de olhares, de toques, de cheiros e um mundo inteiro de sensações por dentro. Armazena gente de todos os tipos e peculiaridades, mas tem lugares ocupados apenas por aquelas pessoas especiais - não são muitas, admite, mas que ficam por inteiro e pra sempre. Não explode, embora muitas vezes tenha vontade. Vontade de transbordar. Vontade de deixar o gás vazar para cair por cima de todo o mundo e abraçar as cidades e as pessoas com seu jeito tão bobo de ser. Às vezes sente-se sozinho, meio rídiculo por rodear catedrais e casas sem poder entrar, às vezes se perde nas rotas indefinidas, mas segue no caminho - sem nem ao menos saber que caminho é esse. Só vai. De tão (in)constante se adequa as mudanças climáticas. Um coração que só quer ser e sentir, sem parar. Que gosta do verbo gostar. Foi feito livre, mas - digo isso aos corajosos - existe o jeito certo de tê-lo. Alguém sempre há de descobrir como segurá-lo pelo fio, como manté-lo um pouco mais perto. Um coração que sabe ficar, mas principalmente um coração que de tão coração vai fazer questão de fazer voar com ele. Levar para um passeio ou para um infinito além de qualquer história. E adivinhe? Um coração - sem querer poetizar - que simplesmente ama.

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