"Eu queria estar agora no meio das suas bagunças, admirando as suas súplicas, fechando os olhos durante suas longas e interessantes pausas de intenção. Queria estar assoprando lentamente seus machucados obtidos durante os nossos pânicos e os nossos tombos nas calçadas tortuosas de ninguém. Queria estar um tanto entrelaçada às suas dúvidas, mas principalmente queria fazer parte das suas melhores e mais absolutas certezas. Queria estar agora com os meus olhos a estacionar na vaga restrita dos seus, com a minha imaginação a correr em alta velocidade por entre seus desejos mais frágeis, parando para satisfazer um a um com toda a paciência do mundo. Queria estar a usar toda a minha caixa de lápis de cor para pintar a sua vida com a intensidade de uma tinta que nunca sai da roupa. Queria estar presente nas confissões que você coloca dentro da fronha do seu travesseiro, te ajudando a entender a ventania que a gente faz. Queria estar na estrada por onde seus sonhos caminham e queria ser a parada onde você mata a sua fome de amor. Queria estar a fazer parte dos seus dias como um bom presságio, como uma notícia que te faz pular de alegria ou como a melhor previsão do teu horóscopo. Queria estar a morrer de saudades suas só por você ter ido buscar água no cômodo ao lado e ser a pessoa mais feliz do mundo por ver você voltar, sem qualquer desvio, para o meu abraço tímido. Queria te cuidar, te proteger do vazio, e - mesmo sendo pequenininha -, queria expulsar qualquer coisa que possa te fazer mal. Queria lotar teu estômago daquelas borboletas loucas que os poetas falam tanto, para que elas pudessem dançar em completa sintonia com as minhas. Queria uma bicicleta mais veloz para chegar mais cedo na porta da sua casa e ter seus cabelos a enroscar nos meus dedos frios do inverno que paira sobre a rua quinze de novembro. Queria que você abrisse as janelas dos seus segredos, dos seus traumas e dessa sua alma tão delirante por vida. Queria estar agora embaixo do teu céu a cantar Chico Buarque como quem vive em pleno Rio de Janeiro de mil novecentos e setenta e três. Queria estar no meio da sua chuva, do lado das suas angústias e em cima da sua cama. Queria estar dentro do teu silêncio, a mergulhar nos seus medos de criança e te segurando forte pra não cair da escada. Queria ser as palavras que você nunca disse pra ninguém e a sua música preferida que toca constante em sua cabeça. Queria estar a sorrir com uma mensagem sua no meu telemóvel às quatro e quinze da madrugada. Queria ser a carta com qual você vira o jogo, levando não só as fichas, mas levando essa minha loucura feita sob medida pra te fazer voar. Queria estar sempre sorrateiramente invadindo os seus pensamentos mais doidos e as suas memórias mais doces. Queria estar escutando James Morrison e bebendo café na sua xícara preferida enquanto você lê qualquer coisa que contraia levemente os seus lábios. Queria ser uma das melhores coisas a acontecer na tua história surreal contra o óbvio, ser teu orgulho contido por ter posse dos meus sentimentos fabricados para poucos. Queria ser o furacão que te vira do avesso, te tira do tédio e que, ao mesmo tempo, te faz a pessoa mais completa do mundo. Basicamente, e mais do que tudo, eu queria ser aquela a me alojar do lado esquerdo e na altura do seu peito quente em vez de ser aquela que precisar ir, mais uma vez, embora. Eu queria você, não por precisar de alguém, mas por ser infinitamente viciada em despertar sorrisos na maré desse seu olhar, que sem querer, não cansa de me engolir".
Texto escrito em 2011

mt bom!
ResponderExcluir"Queria estar no meio da sua chuva, do lado das suas angústias e em cima da sua cama." AMEEEEEI. Sempre genial!
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