quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Estrangeiros de nós

Revirando o silêncio, sintonizando as estranhezas, pulando em águas turvas e calçando augúrios. A mente inventa cada coisa, meu amigo.  Alaga, enxarca e nos afoga no pouco que a razão oferece, esperando ainda - como troca - que sejamos coerentes, escondendo toda a verdade. E o que é a verdade?
Por poucos segundos a consciência bate na porta e diz que tudo isso não existe. E se nada disso existe, onde foi parar o chão?
Esmagando as teorias, sufocando as práticas, apanhando dos que se dizem certos. Se nada disso existe, quem é capaz de dizer pelo que vale a pena sonhar?
Sonhar talvez seja o melhor que podemos fazer. E sofre quem é sonhador nessa coisa tão cartesiana.
Martelando a imaginação, cometendo suicídios de tudo e rastejando em busca de nada. Estamos presos em uma enorme fantasia e ninguém sabe dizer porquê.
O mundo acabou faz tempo e ninguém sequer se deu conta. Dis-traídos.
Emaranhado de sentimentos criados por uma geração que nunca teve - e nem terá - tal resposta. O nosso medo é descobrir. Fechamos os olhos e em vez de mergulhar para dentro, corremos e esperamos que alguma coisa nos salve. De quem? De mim, de você, deles. Deslocados de lugar algum.
Loucos de fome, de vazios, anfetaminas e escuridão que vêm de duzentas décadas atrás. Enganados. Superficiais. Desconhecidos. Indigentes. É obscuro pensar, companheiro. É incômodo não ter certeza de nada. É estranho não saber quando meio mundo vive dizendo que sabe. Se nada disso existe então somos todos fagulhas de algo inomeável. Somos criação. Iludidos, ilusórios. Irreais. A gente inventa a realidade porque, na realidade, ela não existe. E o que é isso então?
O caos, a ânsia, os monstros, as limitações. Tudo vem de dentro e só se olha aquilo que está fora da janela. A mente não te deixa escapar. É demais. Nascemos com gente gritando na nossa orelha o que deve ser feito.
Encontramos o amor e fizemos o que? Mera fuga. E razão. Ninguém ensina mais a ficar. Somos passagem. Livres demais. Prisioneiros de nós. Banais. E queremos, temos vontade de permanecer em algo. Ser alguém. Temos as nossas sensações brigando o tempo inteiro. O tempo não existe e devora. Encontramos o amor e fizemos o que? Etiquetamos ele. Demos nome àquilo que só devia ser sentido.
Se nada disso existe... estamos sendo devorados? Por quem?
Revirando as identidades, bagunçando as gavetas, procurando por alguma coisa que ninguém sabe o que é. Chegamos perto, mas precisamos alcançar. É tudo coisa da nossa cabeça e precisávamos ser almas para entender aquilo que não se entende. Mais um milhão de décadas e continuaremos sem saber. Aceitamos. Vivemos. Amamos do jeito que sabemos. Burros, cegos e loucos. Retirando da incompreensão toda nossa fonte de vida.
E viver é lindo, mesmo que sejam poucos aqueles que param pra pensar naquilo que não é pensado e que sejam muitos aqueles que se sentem como um trem desgovernado sem ter qualquer indício de onde é que se vai parar.

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