A garganta reclamava em dores pela mudança de tempo, ou por aquilo que foi obrigada a engolir. Tinha se enganado nos dias anteriores dizendo que tombo não houve, vai ver a dor surgiu por causa de algum desses escorregões que lhe deixavam no chão gelado. Tinha ficado cega ao ponto de não conseguir ler a placa gritando "danger" bem a sua frente. Estava também perdida no tempo, não sabia dizer que mês ou que dia era, e - como fraqueza - evitava o calendário. Foi então que de alguma forma anônima lembrou como ele lhe dizia: "just mistakes baby". Não queria levantar da cama - mas levantava, sempre levantava. Os braços igualmente doloridos de tanto aperta-los na falha tentativa de espantar seu frio temporário. Ele a tinha alertado tanto, tinha sublinhado e escancarado que a sua impulsividade tinha de ser um tanto controlada - mas como é que se controla impulsividades tão vivas quanto aquelas? Gostava de como ele usava as palavras "surtada" e "irracional" para descrevê-la. Nunca viu maldade naqueles adjetivos, eram apenas uma tentativa de falar que já havia passado por aquilo e que era necessário estar prestando bastante atenção em certas atitudes - não só suas - mas a sua volta, - pra saber levantar, ou melhor, pra nem precisar cair. Era contida em misto com exageros. Tinha paciência enquanto queria mesmo era intensidades. Tentava ser correta ao mesmo tempo que cometia erros absurdos. Desejava falar claramente dos seus sentimentos enquanto era amante do subentendido. Sentia falta dele. Sentia que o tempo poderia não ter passado, e que as dúvidas de sempre não tivessem sumido. Era engraçado, porque tudo o que queria era que as coisas não ficassem paradas diante dela, quando tudo o que ela fazia era ficar parada dentro delas - das coisas, das graças, da vida. Não permanecia estática - era seu maior desejo sendo realizado. Outra vez se viu diante do medo. Não, medo não era a palavra, não mesmo. Era estranho pra ela saber que todas as amarras soltas na verdade não passavam de novas amarras disfarçadas. Precisava de cautela, ou precisava gritar. Não precisava de nada. Só ser ela mesma, e isso era. Anyway, não devia ficar triste com aquilo que sempre a fez feliz. E sem pensar, quis muito ir ao encontro dele, e foi, porque podia fazer tudo aquilo que quisesse, o resto não lhe dizia respeito. As suas próprias opiniões só serviam como uma barreira pra que ela ficasse sem sair do lugar - outra vez. Arriscou, caiu, pediu desculpas - pra ele, pra ela, pra todos, percebeu que estava errada em algumas coisas e "just living" em outras, tentaria ser melhor da próxima vez, se ela viesse a existir. No quarto vazio tocava a música nacional preferida dele e - consequentemente - a dela: "Não há tempo que volte amor, vamos viver tudo o que há pra viver, vamos nos permitir". Daquele dia em diante então, ninguém nunca mais ouviu falar dela, nem mesmo o médico imaginário que cuidava da sua dor. "O que tinha mesmo de ser feito quando remédios já não estavam ao alcance?" foi a frase que amanheceu escrita em seu espelho, com um belo batom de cor "red", batom esse que ela - em um dia desses sem data - ganhou dele.

Quem é foda, mesmo? Ahn? Que texto! O final é simplesmente maravilhoso (sim, eu adoro finais, eu dou muita importância a eles, eu sei, haha.)
ResponderExcluirLindo! Comovente... Adorei.