quarta-feira, 30 de março de 2011

Quem nunca contou as quedas?


"O não dizer te derruba, mas o não sentir te mata"

Estávamos os dois sentados em cima do muro. Eu fechava os olhos como uma atitude de tomar coragem pra dizer. Minha respiração alterando aos poucos, não sei se ele percebeu. Penso agora e agradeço por - naquele momento - estar sentado, se não certamente minhas vertigens me derrubariam ao chão, onde já não sei se de lá levantaria. A primeira sílaba veio surgindo debilmente, as mãos trêmulas e a garganta parecia não existir. Era tarde da noite e estar sozinho com ele depois de tanto tempo já era deveras perigoso - no sentido mais sensato da palavra. Já estávamos em silêncio há muito tempo, e o muro parecia não aguentar nosso peso. Sorri timidamente e com um força quase sobrenatural a voz parecia começar a sair. Meus lábios abrindo lentamente para deixar escapar aquilo que estava preso e sufocado. Olhei pra ele. Pausei o movimento. Sua face branca se desequilibrava e seu corpo caía do muro, feito uma fruta madura, fragilidade que se espatifa no chão. Pulei até ele - estirado na grama. Mal consegui segurar o riso. Não que eu achasse engraçado, mas o nervosismo misturado com todo o antes fez meu corpo reagir de alguma forma. Só consegui rir. Ele reclamava, um tanto irritado, declarando que não era hora pra rir. E ria também, descaradamente. Deitei ao seu lado. Olhávamos o céu, ambos de barriga pra cima, as mãos se tocavam. O muro - visto de baixo - parecia muito mais alto do que realmente era. Todo o episódio do tombo retirou de mim a vontade de falar, substituindo essa vontade por uma que acabaria com o espaço vago entre nós. Imaginei que a dor da caída era igual àquela minha - uma dor passageira. Respirei aliviado. Não houveram mais risadas. O silêncio tinha novamente instalado-se. Dentro de mim o coração inquieto, a alma insatisfeita com o meu pior defeito - ou qualidade - de não mostrar sentimentos que ainda não estão maduros, de não conseguir falar do que sente, a não ser escrevendo. Acho que eu passava uma imagem de dureza, acho que isso ele também percebia, mas sabia que nada em mim era frio, só as mãos dentro daquela noite gelada. Sem palavras. Ele virou de lado, podendo me ver por completo, virei também e encontrei seus olhos, neles já não havia dor nem marcas, eram olhos incertos, mas inteiros, eram olhos daquele que eu mais senti saudade, eram olhos daquele que mais me fez rir, eram meus próprios olhos refletidos nos dele. Ele perguntou se eu queria um chá de morango, respondi que sim, eu sabia o quanto a grama sofreria com a ausência do seu corpo, mas o deixei ir. Quase amanhecia e imaginei que ele já havia pego o trem de volta para a sua cidade. Tinha esquecido do chá, talvez o tombo tenha lhe roubado a memória. Devia ter deixado pra lá a minha sede e o segurado ali, entre meus braços. Eu sabia da possível queda, claro que sabia, mas errei ao deixar minha voz subitamente muda. Covarde coberto pelos primeiros reflexos de sol. O barulho distante do trem partindo e a minha dor - que não passaria. Escalei novamente o muro, fiquei de pé e gritei o mais alto que pude. Maldita voz que agora saía sem esforços. Não adiantava. Logo eu, que só queria que ele chegasse mais perto, estivesse mais perto, que queria que ele não deixasse as coisas acabarem sem nem ao menos começar. Eu, que nunca me contentei com o pouco dentro de mim. Eu, que sempre quis o risco. O vento cortou meu chamado inútil. Vacilei demais e lá estava o mesmo eu: caído no chão, como uma fruta que caí depois da hora, um morango - podre. No meio do meu próprio sangue a manchar o verde da grama onde ele havia estado, senti um novo pensamento me invadir: o muro, o muro não havia aguentado o segurar de suas vertigens, quando tudo o que ele queria me dizer era que. Exatamente o mesmo que eu queria dizer. O barulho do trem logo deu lugar ao barulho de uma leve sirene de fundo. O muro - visto de cima - quase nem existia. Pensei muito nele enquanto partia em busca de um chá vermelho, igual ao líquido que escorria pelo meu peito, no fim daquele dia gelado, onde sabia-se que o próximo dia também seria frio. Não chorei em nenhum momento. A falta de voz também havia me preparado para que me faltasse também as lágrimas.
No dia seguinte demoliram o muro. O nosso lugar quase deserto, digo quase porque ali, - onde costumávamos ficar - ainda restava uma pequena muda de morangos que crescia. Me contentei com isso, enquanto o muro desabava sobre minhas lembranças.

2 comentários:

  1. "Deitei ao seu lado. Olhávamos o céu, ambos de barriga pra cima, as mãos se tocavam. O muro - visto de baixo - parecia muito mais alto do que realmente era."
    Esse lance do muro visto de baixo e visto de cima me trouxe um significado muito, mas muito sólido. Amei. *_*

    Quem nunca reviveu as quedas?

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  2. Vacilei demais e lá estava o mesmo eu: caído no chão, como uma fruta que caí depois da hora, um morango - podre.

    Já te falei né. Eu gostei(:

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