quinta-feira, 15 de setembro de 2011


Ao som de Radiohead - Creep

Meu amor,
Você me perguntou na sua última carta como eu estava e te mando a resposta agora, já voltei a fazer muita coisa que escrevi aqui... Deixei para vir andando até o correio, isso demorou um pouco. Mas não mudo nada de lugar, deixo você saber como foram os dias passados.
*
Cansei de tanta agitação, de tanta velocidade, de correr até cansar. Estou querendo meu sossego de volta, querendo a marola, cansei de dropar todas as ondas. Estou querendo sentar na areia e apenas observar, sentir a brisa, a maresia da vida. Cansei da efusividade, cansei de beber por aí, tão sem graça, tão feio - sempre achei. Que me deixem, que falem que sou careta, que falem que eu não sou. Estou querendo mudar hábitos que não me servem. Cansei de falação. Estou querendo voltar a meditar diariamente, estou querendo meus livros, meus amigos mais fiéis. Cansei de ser trovão, água fervente, guitarra elétrica com cordas arrebentadas. Estou querendo voltar para o meu violão, para a bossa-nova, para o chá de canela. Que me deixem curtir minhas músicas, que me deixem em silêncio com Caetano, Chico e Cazuza, as vezes Radiohead, Coldplay e minhas cantoras preferidas. Que me deixem com meus filmes nacionais, com o Woody Allen e com o Almodóvar. Que me deixem ler García Márquez e Martha Medeiros, assim, ao entardecer, numa praça qualquer, com o vento no rosto, tranquila. Tempo, pausa para respirar, como se eu estivesse brincando de mãe cola - estou no pique. Estou querendo mais cinema, chocolate quente, seriados de tv e pizza. Intervalo. Fim de uma temporada da minha vida que todo mundo assistia - ou pensava assistir. Estou querendo dizer que pouquíssimas pessoas tem direito aos extras, onde tudo realmente acontece - você é uma dessas pessoas, se quiser, é claro. Cansei de badalação. Estou querendo continuar intensa como sempre, mas sentadinha aqui, com as minhas coisas, com as minhas confusões, com toda a simplicidade de sempre. Nunca abandonei isso, mas estou querendo mais ainda o deslize por entre os lençóis, o acordar, o beber café, o olhar pela janela, sem pressa, sem urgências. Estou me querendo de volta, sem nunca ter partido. Estou querendo seguir meus sonhos com a loucura de quem sonha, mas com a calmaria de quem acredita e sabe esperar.

PS: Nesses últimos meses, ter te encontrado no meu caminho me fez resgatar e perceber muitas coisas. Saiba disso. Espero suas cartas, gosto de saber de você. Me escreva sempre. Paz, paz, paz.

Um comentário:

  1. Anônimo12:41

    Lindo texto... texto "entranhal" (que vem das entranhas, se não existe esse termo, acabei de inventar) e em quase tudo resume o que eu estou vivendo no momento, uma busca por meus caminhos, por encontros comigo mesmo, e por voltar a minha essência... esse texto me fez muito bem... bjos!!!!

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