Ao som de Radiohead - Creep
Meu amor,
Você me perguntou na sua última carta como eu estava e te mando a resposta agora, já voltei a fazer muita coisa que escrevi aqui... Deixei para vir andando até o correio, isso demorou um pouco. Mas não mudo nada de lugar, deixo você saber como foram os dias passados.*
Cansei de tanta agitação, de tanta velocidade, de correr até cansar. Estou querendo meu sossego de volta, querendo a marola, cansei de dropar todas as ondas. Estou querendo sentar na areia e apenas observar, sentir a brisa, a maresia da vida. Cansei da efusividade, cansei de beber por aí, tão sem graça, tão feio - sempre achei. Que me deixem, que falem que sou careta, que falem que eu não sou. Estou querendo mudar hábitos que não me servem. Cansei de falação. Estou querendo voltar a meditar diariamente, estou querendo meus livros, meus amigos mais fiéis. Cansei de ser trovão, água fervente, guitarra elétrica com cordas arrebentadas. Estou querendo voltar para o meu violão, para a bossa-nova, para o chá de canela. Que me deixem curtir minhas músicas, que me deixem em silêncio com Caetano, Chico e Cazuza, as vezes Radiohead, Coldplay e minhas cantoras preferidas. Que me deixem com meus filmes nacionais, com o Woody Allen e com o Almodóvar. Que me deixem ler García Márquez e Martha Medeiros, assim, ao entardecer, numa praça qualquer, com o vento no rosto, tranquila. Tempo, pausa para respirar, como se eu estivesse brincando de mãe cola - estou no pique. Estou querendo mais cinema, chocolate quente, seriados de tv e pizza. Intervalo. Fim de uma temporada da minha vida que todo mundo assistia - ou pensava assistir. Estou querendo dizer que pouquíssimas pessoas tem direito aos extras, onde tudo realmente acontece - você é uma dessas pessoas, se quiser, é claro. Cansei de badalação. Estou querendo continuar intensa como sempre, mas sentadinha aqui, com as minhas coisas, com as minhas confusões, com toda a simplicidade de sempre. Nunca abandonei isso, mas estou querendo mais ainda o deslize por entre os lençóis, o acordar, o beber café, o olhar pela janela, sem pressa, sem urgências. Estou me querendo de volta, sem nunca ter partido. Estou querendo seguir meus sonhos com a loucura de quem sonha, mas com a calmaria de quem acredita e sabe esperar.
PS: Nesses últimos meses, ter te encontrado no meu caminho me fez resgatar e perceber muitas coisas. Saiba disso. Espero suas cartas, gosto de saber de você. Me escreva sempre. Paz, paz, paz.
Você me perguntou na sua última carta como eu estava e te mando a resposta agora, já voltei a fazer muita coisa que escrevi aqui... Deixei para vir andando até o correio, isso demorou um pouco. Mas não mudo nada de lugar, deixo você saber como foram os dias passados.*
Cansei de tanta agitação, de tanta velocidade, de correr até cansar. Estou querendo meu sossego de volta, querendo a marola, cansei de dropar todas as ondas. Estou querendo sentar na areia e apenas observar, sentir a brisa, a maresia da vida. Cansei da efusividade, cansei de beber por aí, tão sem graça, tão feio - sempre achei. Que me deixem, que falem que sou careta, que falem que eu não sou. Estou querendo mudar hábitos que não me servem. Cansei de falação. Estou querendo voltar a meditar diariamente, estou querendo meus livros, meus amigos mais fiéis. Cansei de ser trovão, água fervente, guitarra elétrica com cordas arrebentadas. Estou querendo voltar para o meu violão, para a bossa-nova, para o chá de canela. Que me deixem curtir minhas músicas, que me deixem em silêncio com Caetano, Chico e Cazuza, as vezes Radiohead, Coldplay e minhas cantoras preferidas. Que me deixem com meus filmes nacionais, com o Woody Allen e com o Almodóvar. Que me deixem ler García Márquez e Martha Medeiros, assim, ao entardecer, numa praça qualquer, com o vento no rosto, tranquila. Tempo, pausa para respirar, como se eu estivesse brincando de mãe cola - estou no pique. Estou querendo mais cinema, chocolate quente, seriados de tv e pizza. Intervalo. Fim de uma temporada da minha vida que todo mundo assistia - ou pensava assistir. Estou querendo dizer que pouquíssimas pessoas tem direito aos extras, onde tudo realmente acontece - você é uma dessas pessoas, se quiser, é claro. Cansei de badalação. Estou querendo continuar intensa como sempre, mas sentadinha aqui, com as minhas coisas, com as minhas confusões, com toda a simplicidade de sempre. Nunca abandonei isso, mas estou querendo mais ainda o deslize por entre os lençóis, o acordar, o beber café, o olhar pela janela, sem pressa, sem urgências. Estou me querendo de volta, sem nunca ter partido. Estou querendo seguir meus sonhos com a loucura de quem sonha, mas com a calmaria de quem acredita e sabe esperar.
PS: Nesses últimos meses, ter te encontrado no meu caminho me fez resgatar e perceber muitas coisas. Saiba disso. Espero suas cartas, gosto de saber de você. Me escreva sempre. Paz, paz, paz.
Lindo texto... texto "entranhal" (que vem das entranhas, se não existe esse termo, acabei de inventar) e em quase tudo resume o que eu estou vivendo no momento, uma busca por meus caminhos, por encontros comigo mesmo, e por voltar a minha essência... esse texto me fez muito bem... bjos!!!!
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