Os olhos hipnóticos que nada dizem. O caos que eles trazem, as dúvidas, o momento presente enquanto não consigo deles desviar. Me atingem em cheio, como uma lança envenenada digna de um filme pseudo-mágico. O susto não veio, porque não era possível pensar, não diante deles, não parada na porta do bar onde cruzei com eles pela primeira vez. Um bar não é um bom lugar para se conhecer alguém, muito menos para paralisar diante desse mesmo alguém. Está todo mundo muito feliz, muito alegre por causa da bebida, descontraídos por causa do fim de semana, esquecidos das dores por estarem longe de casa, anestesiados pelo fingimento... não é bom se interessar por quem parece muito feliz. Claro, claro que falo com base nos meus conhecimentos - mínimos, diga-se de passagem - mas eu gosto mesmo é de descobrir o ponto fraco de cada um, a dor de cada um, só assim a gente entende o que os olhos trazem, só assim. Acho o estado de felicidade - muitas vezes forçado - um estado que não revela muito, a gente se conhece mesmo é nas barras pesadas que atravessamos. Não digo que gosto do sofrimento, não é isso, só gosto da ideia de que - ao acaso - os olhos revelem o escondido, o interno, o intocável. Daqueles olhos fugazes ainda não conseguia arrancar nada disso, não conseguia descobrir os medos, nem as farsas, nem nada... era isso o que mais me incomodava. Eles eram grandes, misteriosos, e não chamavam a minha atenção por causa da cor, mas porque me pareciam demasiadamente complexos. Eles eram negros, um poço pronto para te engolir, e eu ainda estava ali, imóvel, sem que o corpo reagisse para correr, sem dar chance - ao menos - para que eu desse um passo para trás, ficando fora de seu alcance. Eles me olhavam sem realmente me ver, porque primeiro: eu era uma pessoa difícil de ser notada, e segundo: o que desejavam era apenas prender sem nenhuma outra intenção, e quando digo prender, é apenas por mera rotina que uma pessoa executa no fim da tarde, quando entra num bar, bebe três ou sete cervejas e sai procurando alguém. Não era isso, embora eu não visse claramente, eu sabia - inconscientemente - de cada detalhe que passava ali dentro, e não tinha força alguma para parar de tentar ver mais, como se dentro da minha hipnose eu fosse quem descobria os traumas, e não quem revelava eles, os papéis trocados. Eram olhos duvidosos, incompreensíveis, incógnitos. Me traziam o caos porque eu não sabia arrancar deles a palavra certa para explicar, me traziam a dúvida porque eu não sabia qual seria o próximo movimento. Eles não me procuraram em nenhum momento, fui pega sozinha e... eu ia falar indefesa, mas ia parecer que eu sou uma coitadinha-fácil-de-ser-hipnotizada, mas não sou - antes fosse, seria mais fácil deixar-se envolver sem saber de nada -, mas sou daquelas que olha de olho por olho, procurando vestígios.. que não sente-se influenciada por eles - tudo bem, dependendo do olhar é impossível não ter vontade de mergulhar, o diante de mim agora era assim -, que gosta deles por eles não serem apenas olhos, mas a porta de entrada pro mais camuflado que possa existir - mudo então a frase e digo: peguei aquele olhar sozinho, vulnerável.. de fato era eu quem hipnotizava, não no sentido de ser fatal, mas por ser curiosa e amante do invisível, fazendo com que tudo parasse para descobrir pensamentos, ilusões, perdas e ganhos - mas aquele olhar não precisava se preocupar, eles tinham algo a mais. Respiro em meio a pausa, estou quase descobrindo, quase, quase lá.. Quanto tempo dura? Um minuto, dois no máximo e o transe se desfaz, os olhos somem como fumaça - foi por pouco. Entro no bar, meio atônica, peço uma cerveja, não olho para trás, ajeito o cabelo e passo a esquecer das minhas próprias dores e entro nos meus esconderijos - estou feliz e descontraída, as coisas se revelariam turvas, e naquele momento, só quem fosse como eu descobriria o que os meus próprios olhos escondem e gritam. A hora de voltar para casa chega, é a hora de chorar um pouco no escuro enquanto penso naquele belo par de olhos, que não consegui desvendar, mas que mexeram completamente comigo - e que por algum motivo - infeliz - não conseguiram me levar junto com eles... não me desespero, quem sabe consigo no próximo encontro, no próximo bar, nos próximos olhos que me façam querer saber, que queiram me revelar muito mais do que é - simplesmente - permitido.
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