sexta-feira, 17 de junho de 2011


“Não desista, vá em frente, sempre há uma chance de você tropeçar em algo maravilhoso.” CFA

Meu amor,
Tinha um degrau, uma subida horrivelmente dolorida... suponho que subir correndo seria o maior dos erros, quase mortal, você entende? Foi por isso que parei um pouco para analisar os fatos e cheguei a uma conclusão terrível: onde é que aquilo tudo iria me levar? Eu não sabia, eu não sei. Tenho certeza que você falaria pra eu continuar e ver onde ia dar, porque ia dar, uma hora ia dar em algum lugar… e se esse lugar for feio baby? E se eu não encontrar nada? E se eu ficar subindo sem nunca chegar? Tem razão, a ida é sempre a melhor opção, mas só estou aprendendo a ser um pouco mais decidida nesses últimos meses, me entenda. Não quero te ultrapassar, não quero passar por você como quem não vê nada. Me diz, terá realmente alguém me esperando? É por isso que eu disse: tinha um degrau e uma quase certeza de tombos - você mais do que ninguém sabe como eu sou desajeitada e distraída, sempre metendo os pés pelas mãos, sempre escorregando, um tanto errada e desequilibrada por natureza. Tudo bem, agora pensando nisso tudo com calma eu percebo que é mais do que certo que devo continuar, apesar de tudo... com tranquilidade e com passos certeiros, sem correr e incansavelmente. Vê só como estou me restabelecendo com aquela coisa chamada esperança? ou confiança, já não sei a diferença dessas coisas todas. Acho que é disso que eu não posso abrir mão durante o caminho, mesmo que me levem para becos sem saídas. Só quero que você fique ciente que se eu passar por ti e não olhar é porque estou muito focada onde quero chegar, embora não saiba absolutamente nada sobre o que - ou se - vou encontrar. Vou calçar meu all star velho, vou olhar para frente e subir, pouco a pouco... sei que atrás dos meus pés tudo cairá no escuro e não haverá jamais a alternativa de volta. Estou seguindo em frente. Um degrau depois do outro, respirando e sentindo, sentindo amor, sentindo alegria, sentindo paz. Não penso mais em chegada, mas em como está sendo minha ida. Torce por mim? Seja lá em que posição você esteja nesse caminho - onde não existe podium - mas que é infinitamente cheio e coberto de mim.

Março de 2011

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Quase induzido


Os olhos hipnóticos que nada dizem. O caos que eles trazem, as dúvidas, o momento presente enquanto não consigo deles desviar. Me atingem em cheio, como uma lança envenenada digna de um filme pseudo-mágico. O susto não veio, porque não era possível pensar, não diante deles, não parada na porta do bar onde cruzei com eles pela primeira vez. Um bar não é um bom lugar para se conhecer alguém, muito menos para paralisar diante desse mesmo alguém. Está todo mundo muito feliz, muito alegre por causa da bebida, descontraídos por causa do fim de semana, esquecidos das dores por estarem longe de casa, anestesiados pelo fingimento... não é bom se interessar por quem parece muito feliz. Claro, claro que falo com base nos meus conhecimentos - mínimos, diga-se de passagem - mas eu gosto mesmo é de descobrir o ponto fraco de cada um, a dor de cada um, só assim a gente entende o que os olhos trazem, só assim. Acho o estado de felicidade - muitas vezes forçado - um estado que não revela muito, a gente se conhece mesmo é nas barras pesadas que atravessamos. Não digo que gosto do sofrimento, não é isso, só gosto da ideia de que - ao acaso - os olhos revelem o escondido, o interno, o intocável. Daqueles olhos fugazes ainda não conseguia arrancar nada disso, não conseguia descobrir os medos, nem as farsas, nem nada... era isso o que mais me incomodava. Eles eram grandes, misteriosos, e não chamavam a minha atenção por causa da cor, mas porque me pareciam demasiadamente complexos. Eles eram negros, um poço pronto para te engolir, e eu ainda estava ali, imóvel, sem que o corpo reagisse para correr, sem dar chance - ao menos - para que eu desse um passo para trás, ficando fora de seu alcance. Eles me olhavam sem realmente me ver, porque primeiro: eu era uma pessoa difícil de ser notada, e segundo: o que desejavam era apenas prender sem nenhuma outra intenção, e quando digo prender, é apenas por mera rotina que uma pessoa executa no fim da tarde, quando entra num bar, bebe três ou sete cervejas e sai procurando alguém. Não era isso, embora eu não visse claramente, eu sabia - inconscientemente - de cada detalhe que passava ali dentro, e não tinha força alguma para parar de tentar ver mais, como se dentro da minha hipnose eu fosse quem descobria os traumas, e não quem revelava eles, os papéis trocados. Eram olhos duvidosos, incompreensíveis, incógnitos. Me traziam o caos porque eu não sabia arrancar deles a palavra certa para explicar, me traziam a dúvida porque eu não sabia qual seria o próximo movimento. Eles não me procuraram em nenhum momento, fui pega sozinha e... eu ia falar indefesa, mas ia parecer que eu sou uma coitadinha-fácil-de-ser-hipnotizada, mas não sou - antes fosse, seria mais fácil deixar-se envolver sem saber de nada -, mas sou daquelas que olha de olho por olho, procurando vestígios.. que não sente-se influenciada por eles - tudo bem, dependendo do olhar é impossível não ter vontade de mergulhar, o diante de mim agora era assim -, que gosta deles por eles não serem apenas olhos, mas a porta de entrada pro mais camuflado que possa existir - mudo então a frase e digo: peguei aquele olhar sozinho, vulnerável.. de fato era eu quem hipnotizava, não no sentido de ser fatal, mas por ser curiosa e amante do invisível, fazendo com que tudo parasse para descobrir pensamentos, ilusões, perdas e ganhos - mas aquele olhar não precisava se preocupar, eles tinham algo a mais. Respiro em meio a pausa, estou quase descobrindo, quase, quase lá.. Quanto tempo dura? Um minuto, dois no máximo e o transe se desfaz, os olhos somem como fumaça - foi por pouco. Entro no bar, meio atônica, peço uma cerveja, não olho para trás, ajeito o cabelo e passo a esquecer das minhas próprias dores e entro nos meus esconderijos - estou feliz e descontraída, as coisas se revelariam turvas, e naquele momento, só quem fosse como eu descobriria o que os meus próprios olhos escondem e gritam. A hora de voltar para casa chega, é a hora de chorar um pouco no escuro enquanto penso naquele belo par de olhos, que não consegui desvendar, mas que mexeram completamente comigo - e que por algum motivo - infeliz - não conseguiram me levar junto com eles... não me desespero, quem sabe consigo no próximo encontro, no próximo bar, nos próximos olhos que me façam querer saber, que queiram me revelar muito mais do que é - simplesmente - permitido.

quinta-feira, 19 de maio de 2011



E em meio a tanta vontade, falta vontade. E na sobra de tantos desejos, ainda falta. No mar de não, falta um sim. Nessas loucuras sobram faltas e faltam sobras. Transbordando querer, sem querer.



sábado, 14 de maio de 2011

que me completa pela existência.

Nunca toquei a sua pele, nunca te falei desse encanto enorme que alimento, nunca encarei seus olhos doces de amêndoas, nunca estive a menos de quatro passos de distância do seu mistério leve, do seu coração pulsante e da sua maneira inebriante de ser. Sonho com você, sonho em tudo o que não posso fazer... te abraçar, sussurar em seu ouvido que te quero bem, parar na sua frente por um tempo incalculável e admirar seu rosto nos mínimos detalhes, tocando com a ponta dos meus dedos os seus cabelos levemente ondulados. Penso então que o nunca de nada me impede de continuar, de buscar o teu olhar no meio da multidão, de competir com os outros um pouquinho de atenção, de te escrever poesias bregas que você não chegaria a ler e cantar músicas que você não chegaria a ouvir. Sou uma anônima sonhadora que nunca ultrapassou a sua barreira, sou quem escreve palavras transparentes que nunca chegaram nem perto do seu campo de visão. Me utilizo da calma já acumulada por tanto tempo, e espero o dia em que tudo isso passará do plano imaginário para o plano real - velozmente, caoticamente, tanto faz -, mas que te trará de vez para os meus braços, em um momento só nosso. Sei que nesse encontro sentirei a alegria e o calor que você - naturalmente - possui, porque já pensei e planejei isso diversas vezes. Nunca te disse meu nome, nem o que ando fazendo, nunca troquei uma palavra sequer contigo, mas sei o quanto tudo isso existe - os sonhos ainda contam? Outra vez me pego sonhando com você, no dia em que desesperadamente te confessarei o meu sentimento louco, esse que escorre pelos meus olhos, que você nunca viu, mas que verá - num dia suficientemente propício. Sonho, sonho, sonho, enquanto não posso te ter, enquanto não posso chegar mais perto, enquanto a questão de coragem, entrega e sorte não se faz também presente. Imagino todo o meu percurso em sua direção, enquanto acredito que um dia o "nunca" possa se tornar "sempre".

quarta-feira, 11 de maio de 2011



Não, eu não sei o que dizer, não sei dar nome ao que ficou - depois de tudo. Eu comecei a aceitar com a máxima naturalidade os nossos silêncios. Lembro de todos os estágios de sentimentos que me trouxeram até aqui, e agora se eu fosse dizer alguma coisa seria algo como “é amor, e ele existe” e é isso que me leva de volta pra você todas as vezes. Como se tudo que é pra ser nosso, volte uma hora ou outra. Não, não tenho mais vontade de te dominar, te ter só pra mim, e esse é o segredo, nossa liberdade. Sabe? é uma coisa calma, uma sensação boa, um não esperar nada em troca e só sentir, um amor que só se manifesta, sem cobranças, sem mesmo precisar do corpo, só da alma. Nossa incompreensão é o mais bonito de tudo. Você mudou, eu mudei, e sabemos. A gente sempre sabe quando uma coisa vai continuar existindo, mesmo que lá no fundo, mesmo que guardado a sete chaves. Eu falaria de outras vidas, você acreditaria? Só sei que é uma coisa serena, limpa, inteira. Isso pra mim basta, mesmo sem saber por onde tu andas, além de andar sempre comigo.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Estou sentindo alguma coisa estranha. Por favor, feche a porta. Fique para o lado de dentro idiota. Não sei se devo, mas deixo você entrar, só fique sabendo que não dá mais pra voltar se você, por acaso, resolver sair. Você não pode falar dessas coisas agora, entenda. Não consigo me mexer. Para de me olhar com essa cara, ainda estou respirando. Sim, meus olhos ficam ausentes quando isso acontece, eu fico meio ausente as vezes, mas quem é que percebe? Claro que não sei pra onde ir e nem o que fazer se eles entrarem aqui. Você sabe? É tudo de propósito, tudo. Me alcança a toalha, preciso me secar. Olha aqui, vem ver se esse corte está mesmo prestes a sangrar. Porra! Para de repetir que não se importa. Não, não foi com você. Recolha as roupas estendidas na janela e a feche também. Cuidado com essa sujeira, olha meus livros, meus acasos, meu sorriso, cuidado. Eles foram embora logo depois que eu entrei, já te disse. Deve ter sobrado um ou dois, eles adoram me meter em problemas. Já não pedi clareza? ao menos agora, ao menos quando eu mais preciso. Ah, idiota, pare de rir, estou falando sério. Larga essa chave, joga fora. Não posso mais sair daqui, será que você não entende? Olha o absurdo contido nas suas palavras, não é hora de me negar um pouquinho de verdade. Eu devia ter dito tudo antes, mas não sabia que voltaria a acontecer. Ainda não eram quatro horas, errei novamente o horário, maldita distração imposta de sempre. Cuidado, você quase tropeçou no meu orgulho. Não estou tentando nada. Só quero ficar aqui dentro enquanto eles não vão embora. Seca meus cabelos? Pedir pra você curar meus ferimentos já seria pedir demais, eu sei, eu sei idiota. O que é isso na sua mão? Porra! Você também esteve lá fora? Você tem um corte igualzinho ao meu, mas não vamos medir profundidade agora, por favor, não há tempo. No armário deve ter curativos, pega ali, não tenha medo de invadir demais, só cuidado com a esperança que eu deixei embaixo da cama. Logo logo eu a tiro dali e troco pelas expectativas usadas e gastas, não se preocupe. Pronto, vem cá, vou cuidar da sua mão, vou cuidar de você. Começa a cantar, o barulho está me deixando nervosa outra vez. A coisa estranha está voltando, ai meu Deus, se afaste. Pegue as chaves, vai pra perto da porta, corra quando eu disser já. Eu ficarei aqui, se salve, vai. Me obedece, ao menos dessa vez, por favor. Tira o amor da frente, ele não pode trancar a saída. Faz qualquer coisa mas, de qualquer forma, o tire do caminho. Acho que entendi, não existe força pra arrancar isso dai né? mas o que a gente faz? Não posso deixar de amar, nem por um segundo, não me peça isso. Tudo bem, confesso que foi uma coragem urgente, não deixaria de avisar pra tomar cuidado com, principalmente, o amor. Calma, respira, encontraremos a solução. Já sei, volta pra cá, a gente pode ficar em silêncio absoluto o tempo que for necessário. Aposto com você que logo logo eles vão embora pra sempre. Não idiota, essa aposta eu tenho certeza que eu ganho. Não fala mais nada, um dia toda essa estranheza vai embora, eu juro. Cuidado também com o meu silêncio, ele está diante de você agora, não se machuque trombando nele, por favor, não me restaria mais nada. Não, eu não ia esquecer daquilo que não nos deixa fugir, claro que não ia. Me alcança aquela alegria abstrata, preciso trocar de roupa antes de tentar novamente. Psiu idiota, chega de falar bobagens. Psiu, se acalma, seja lá quem você for, quero que saiba que, enquanto ficarmos aqui, eu cuido de você... eu cuido de vo.. eu cui..

quarta-feira, 13 de abril de 2011

por mais um dia sem data.

A garganta reclamava em dores pela mudança de tempo, ou por aquilo que foi obrigada a engolir. Tinha se enganado nos dias anteriores dizendo que tombo não houve, vai ver a dor surgiu por causa de algum desses escorregões que lhe deixavam no chão gelado. Tinha ficado cega ao ponto de não conseguir ler a placa gritando "danger" bem a sua frente. Estava também perdida no tempo, não sabia dizer que mês ou que dia era, e - como fraqueza - evitava o calendário. Foi então que de alguma forma anônima lembrou como ele lhe dizia: "just mistakes baby". Não queria levantar da cama - mas levantava, sempre levantava. Os braços igualmente doloridos de tanto aperta-los na falha tentativa de espantar seu frio temporário. Ele a tinha alertado tanto, tinha sublinhado e escancarado que a sua impulsividade tinha de ser um tanto controlada - mas como é que se controla impulsividades tão vivas quanto aquelas? Gostava de como ele usava as palavras "surtada" e "irracional" para descrevê-la. Nunca viu maldade naqueles adjetivos, eram apenas uma tentativa de falar que já havia passado por aquilo e que era necessário estar prestando bastante atenção em certas atitudes - não só suas - mas a sua volta, - pra saber levantar, ou melhor, pra nem precisar cair. Era contida em misto com exageros. Tinha paciência enquanto queria mesmo era intensidades. Tentava ser correta ao mesmo tempo que cometia erros absurdos. Desejava falar claramente dos seus sentimentos enquanto era amante do subentendido. Sentia falta dele. Sentia que o tempo poderia não ter passado, e que as dúvidas de sempre não tivessem sumido. Era engraçado, porque tudo o que queria era que as coisas não ficassem paradas diante dela, quando tudo o que ela fazia era ficar parada dentro delas - das coisas, das graças, da vida. Não permanecia estática - era seu maior desejo sendo realizado. Outra vez se viu diante do medo. Não, medo não era a palavra, não mesmo. Era estranho pra ela saber que todas as amarras soltas na verdade não passavam de novas amarras disfarçadas. Precisava de cautela, ou precisava gritar. Não precisava de nada. Só ser ela mesma, e isso era. Anyway, não devia ficar triste com aquilo que sempre a fez feliz. E sem pensar, quis muito ir ao encontro dele, e foi, porque podia fazer tudo aquilo que quisesse, o resto não lhe dizia respeito. As suas próprias opiniões só serviam como uma barreira pra que ela ficasse sem sair do lugar - outra vez. Arriscou, caiu, pediu desculpas - pra ele, pra ela, pra todos, percebeu que estava errada em algumas coisas e "just living" em outras, tentaria ser melhor da próxima vez, se ela viesse a existir. No quarto vazio tocava a música nacional preferida dele e - consequentemente - a dela: "Não há tempo que volte amor, vamos viver tudo o que há pra viver, vamos nos permitir". Daquele dia em diante então, ninguém nunca mais ouviu falar dela, nem mesmo o médico imaginário que cuidava da sua dor. "O que tinha mesmo de ser feito quando remédios já não estavam ao alcance?" foi a frase que amanheceu escrita em seu espelho, com um belo batom de cor "red", batom esse que ela - em um dia desses sem data - ganhou dele.

domingo, 10 de abril de 2011



Nos primeiros minutos chovia. Havia calma, meu Deus, como tinha pedido por isso. O sorriso sendo pintado no rosto. O espelho, a água da torneira escorrendo inesgotávelmente, o mantra em repetição misturando-se com os desejos bons. Chovia mais forte. Lembrava de dias passados, certamente felizes, uma saudade e tanto - daquilo que ainda viria, daquilo que passou, daquelas pessoas, daqueles momentos. Saiu de casa, dessa vez não tropeçou. Sentou atrás de uma cortina preta, certamente amassada. Respirou fundo sete vezes. Agradeceu muito. A alegria interna se instalava como se quisesse morar ali pra sempre, ou melhor, como se morasse sempre ali. Mãos, corpos, refúgios. Sinais sonoros - três vezes, depois mais três. Ria. Voltou cinco anos atrás, uma oração, a continuidade. Avançou mais um pouco. Era tão abençoada. Tinha o melhor - tinha certeza. Cruzou a ponte, a música começou. Muitos rostos, muitas luzes, muitas vozes. Resumiria com a palavra amor, certamente. A chuva não mais chegava ao solo, havia cessado, só por ela. Gritava por liberdade, sem saber gritar. Só desejava aproveitar, enquanto ainda tinha tempo. Vontade de abraçar o mundo, de beber os sonhos. Fome de abraços, risadas e cumplicidade. Tinha - acreditava. Os meios definitivamente justificavam os fins, ou o correto seria dizer que os fins justificavam os meios? Não sabia, e não se importava. Não lembrava que todo esforço acabava com a frase clichê de que "valia a pena". Apesar da pequena amnésia, sabia que ainda era a hora. Era tudo muito simples, e tudo muito bonito também. Novamente agradeceu, novamente sonhou. Nos primeiros minutos soube - irremediavelmente - o quanto era feliz.

terça-feira, 5 de abril de 2011

I

A vida é assim, um costurar e descosturar adoidado, sem pausas.


Era mais uma daquelas semanas lotadas de coisas para se fazer. Sem mesmo saber o que - porque. Ela atravessou a rua, pediu para que eu a seguisse. Fitei seu vestido rasgado e imediatamente retirei da mochila uma agulha e um fio para costurá-lo. Pedi para que o tirasse e - sem muita habilidade - eu tentei ajudá-la, eu tinha mesmo essa mania de tentar consertar as coisas. Pudesse eu dar pontos em seu coração rasgado, no meu próprio. Lembro que já tinha sofrido com rasgos e furos, e pra vestir novamente aquilo que eu queria tive que me virar pra deixar tudo em ordem- não pense você que foi fácil. Fui então tecendo aos poucos, lembrando como se fazia - sem lembrar de nada. Estava frio, ela tremia e chorava. Seu corpo nu diante dos meus olhos, uma esquina solitária, uma camada de dores nos separando. De longe ouviámos os barulhos dos carros, o tocar dos telefones públicos, o estralar dos cacos de vidro em atrito com o cimento. Ela se encostou no portão de uma velha casa pra esperar minha boa ação de consertar-um-vestido-e-acabar-com-um-sofrimento. Meus dedos cansados de espetar a agulha no tecido leve, meus olhos cansados de não poder olhar além da espessura fina que anteriormente lhe cobria o corpo. Estava claro pra mim que aquele era o momento errado pra entrar em sua vida. Estava claro também que a imaginação dela era bem maior que a minha, o vestido tinha contornos horríveis de exagero, do qual eu não fazia parte. A impressão que eu tinha era que jamais conseguiria terminar de costurar. E que ela não falasse do meu egoísmo naquele instante, que ela nem contasse a história de como ficara assim. Já não sabia o que pensar enquanto nas mãos a agulha movia-se automaticamente, sem muito propósito, sem a motivação inicial. Era um gesto perdido, um movimento para ocupar a rotina - além de prestar um grande favor. Não fazia sentido sentir coisas assim, e por isso sentia. Não fazia sentido falar a verdade - mas felizmente eu não sabia mentir.

Naquele dia, o congestionamento interno, o retrocesso, a falta do pano que ficou pra trás e a ausência - do todo. Lhe devolvi o vestido - que continuava rasgado.

Não lhe devolvi o coração, que - sem querer - rasgou também o meu.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

II

Faziam planos enquanto a trilha sonora se arrebentava entre guitarras elétricas e tons altissimos. Ela preferia Chico, mas ele insistia em ouvir suas músicas metalizadas. Faziam planos ainda assim. Uma mochila, um país distante, os dois juntos. As bagunças internas misturadas, a cozinha imunda pelos restos de comidas levemente aquecida. Ela não tinha cabelos vermelhos e ele não vestia preto. Tinham caído exatamente no mesmo buraco. Uma língua estrangeira demais pra nacionalidade imperfeita deles. Faltaria comida para o gato e ela só vestiria as camisas dele. A bagagem seria extraviada na ida, ficaria perdida em um banco de caminhão onde de carona passaram. Passariam frio ao chegar na pensão da mulher de branco. Tomariam incontáveis sopas de cogumelos e rúcula. Rúcula seria o título de um dos primeiros textos publicados no jornal local, pela autoria conjunta deles. As vozes ficariam cada vez mais roucas pelo excesso de nicotina, whisky e karaokês nos finais de semana. Se perderiam no metrô e chegariam em casa molhados da chuva. Ela esperando ele para assistir um filme água com açucar e ele vidrado na tela pelos filmes de Hitchcock. No natal vestiriam amarelo, pra fugir das tradições. Faziam planos e mais planos, um futuro todo pela frente. Fariam uma tatuagem juntos, ela riria e ele agarraria-se na poltrona do cafofo com as paredes pichadas. Brigariam mil vezes e fariam as pazes embaixo das tempestades de verão. As guitarras elétricas continuariam a berrar, Chico continuaria a embalar os sonos e as noites de amor no chão frio. Tinham lá seus vinte anos e as costas carregadas de sonhos. Faziam planos de viver para sempre juntos - mesmo ela não acreditando no "sempre" - tão diferentes. A trilha sonora mudaria de momento em momento, as roupas ganhariam estilos, as luzes seriam refletidas em mil facetas, os cenários cada vez mais bonitos. Faziam planos, até o dia em que, sem músicas, sem cores e sem ela, um carro arrebentaria seu corpo de homem frágil, que em silêncio adormeceria ao lado do corpo de mulher forte dela, desamparada no hospital da cidade natal, de onde jamais partiriam.

Continuariam sonhando então.