terça-feira, 30 de abril de 2013

Nunca mais não é muito tempo para as tuas coisas ficarem fora do meu peito?

Ao som de Any Other World - Mika

Parecia que nunca mais ia acontecer. Entrar pela porta do teu quarto e te pegar distraída olhando pela janela. Sonhadora. Parecia que não seria mais possível que você virasse ao sentir minha presença e se jogasse manhosa nos meus braços. Você e a tua franja cobrindo seus olhos amendoados e tímidos. Você e a tua camiseta do mickey. Você e teu coração bagunceiro e inquieto que adora se colocar nas minhas mãos. Parecia que eu nunca mais ia repousar meu rosto na curva delicada das suas costas enquanto, sem fôlego, recuperamos a energia. Você e a tua mania de contar minhas pintas e rir das minhas não-piadas. Você e a tua fissura pelas histórias de "era uma vez". Você e teu joelho ralado de garota arteira que não me deixa fugir. Parecia que eu nunca mais ia escutar você pedindo abrigo, clamando cafuné e cantando Oasis. Encabulada. Você e a sua vontade de se enrolar nas minhas pernas, pular na minha meditação e se esconder nas minhas cortinas. Parecia que você não ia mais fazer bico, drama e nem se aninhar no meu ombro frio. Cansada. Você e as tuas irregularidades de humor. Você e o teu ar de quem sabe tudo. Você e a tua não-vergonha de me listar fraquezas. Parecia que tuas mãos finas nunca mais iam dançar pelo meu cabelo, escrever nas minhas coxas e tocar nos meus medos. Você e a tua forma de segurar o violão. Você e as tatuagens que cobrem metade do seu braço esquerdo. Você e seu batom acerejado com gosto de nós. Parecia que a gente nunca mais ia brigar pelo sabor da pizza, do sorvete e dos pirulitos coloridamente enormes que você teima que saíram de um filme do Tim Burton. Vulneravelmente irresistível. Parecia que nunca mais haveria teu cheiro misturado com o amaciante do meu lençol. Você e tua testa levemente franzida de raiva por eu brincar de me afastar quando você quer beijo. Você e tuas meias de pelúcia. Você e teu risinho culpado depois da mordida. Aterrorizada. Parecia que nunca mais ia ter espaço pra essa loucura que a gente faz. Parecia o fim, mas você e esse jeito impetuoso de entrar no meu carro pedindo pra eu ficar. Você e essa boca alucinadamente linda me pedindo pra permanecer mais uma noite, ou mais uma vida inteira. Você e tua forma mansa de me pegar pelo pescoço e fazer com que eu fique. Parecia mesmo que era o fim, mas era apenas mais um dos seus alarmes falsos. Você e essa tua síndrome de fazer tempestade pra dizer que é minha. Intensamente minha.  Maluca.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

dédalo.

O ano não é esse. As roupas de ontem hoje estão sujas. A gente ainda não se conheceu. É um fim de semana aleatório e eu estou na praia. Você está num show do The Smiths, mas ainda não sabe se curte o som dos garotos. Havia acabado de chover. Eu penso em algo como búfalos e verdades. Você ainda não sabia mentir. A história não é agora. Ainda não existe a nossa sala. Eu caminho pra dentro de um bar, mas ainda não sei beber. Você continua ensopada no meio da multidão se perguntando o que fazer. As palavras não são essas.  Eu me pergunto se é assim a solidão. Você se sente absurdamente sozinha enquanto toca "Asleep". Havia quatro dólares no meu bolso. Seu rímel escorria. A gente ainda não tinha lido nenhum livro que realmente prestasse. Você ainda costumava saber quem era. Eu peço pro garçom mudar a estação da rádio. Os olhos de ontem hoje são um tanto temerosos. Não era verão. Você chama um táxi. Eu já estou embaixo do chuveiro. Ainda não ouvimos a música que estava prestes a virar sucesso. O trânsito está parado. Você treme de frio. Eu pego uma coberta. Temos vontade de chorar. A hora não é essa. Tomo um chá. Você sobe as escadas. Estou pensando em ligar pra alguém. A gente ainda não se entregou de verdade. Você perdeu seu celular enquanto a banda tocava. O tempo ainda não passava tão rápido. A gente ainda não costumava se preocupar tanto com os noticiários. A vida de ontem hoje já é consideravelmente dessemelhante. Eu tinha anotações num caderno de capa dura. Você curtia colecionar selos e discos. A gente ainda não entendia bem esse lance de dor. Você sonhava em encontrar o cara dos seus sonhos. Eu já tinha alguns graus de miopia. Ainda não existia mágoa. Eu apago o abajur e tento dormir. Você sente dor de cabeça. A gente ainda não era fã do pós modernismo e pesadelos não eram tão frequentes na nossa cama. Eu não consigo dormir. Você canta baixinho alguma coisa.  A gente ainda não precisava fugir. O dia não é esse. Eu ainda gostava daquilo que todo mundo gosta. Você ainda imaginava castelos pintados com lápis de cor. A gente ainda não sabia o que era traição. A semana não é essa. Eu comia leite condensado direto da lata. Você ainda não sabia o que era gozar. Os sonhos de ontem hoje já estão grandinhos e um pouco pálidos. Eu finalmente pego no sono. Você desmaia na sua casa de cidade grande. Eu tenho uma alucinação. Você tem um delírio. O instante não é esse momento. A gente sonhava bem mais. Eu vejo filhotes de cachorros lambendo meu rosto. Você se vê vestida de noiva. O mar por trás da janela ainda brincava calmamente. Tua televisão ainda passava filmes em preto e branco. A gente ainda não entendia os erros do mundo e nem sabíamos o quão humanos éramos. O ontem ainda não era hoje. A gente ainda não se conhecia. O fim não é assim. Haveria um começo.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

III

Cure-se desse sentimento. Tu bem sabes que ele não leva a nada. Desinfecte-se de tudo o que ousou dar, mas não deu. A vida, pequena, só se faz nova se nos permitirmos a despedidas. Eu bem sei que não é simples, mas - num determinado momento - é preciso decidir mudar. Esqueças daquilo que te fez chorar e fiques apenas com os minutos contornados de sol. Siga em frente, por mais banal que isso te pareças, é sempre o que deves ser feito. Limpe-se de antigas expectativas e promessas. Esvazie essa tua retina que, acredito eu, viu muita gente indo embora e pouca gente sabendo ficar. Não culpes o céu, nem os erros de alguém. Fiques apenas com a certeza que é assim que tem que ser. Teimosia, na maioria das vezes, só te incriminas de crimes que tu nunca fez. Enfrente-se e perguntes a ti mesma qual é o rumo que tu queres tomar. Prantear debruçada ao passado és como perder de vista todas as oportunidades singelas que acenam a cada nova esquina. Permita-se olhar o antes com carinho, mas não deixes escapar nada que estás por vir. A vida, pequena, é saber se reconstruir sem deixar nenhum pedaço importante jogado por aí. Logo tu verás que fomos feitos pra recomeçar, e convicta faça-o sabendo que nada foi ou será em vão. Cure-se de ti e voltes a dançar sob as estrelas, pois elas nunca se apagam.
 Foi o que eu fiz.

II

Se tu conheces um pouco de suas fraquezas, então sabes que amor é tempo. Tempo de lembrar e também de esquecer. Sim, pois até o amor deves ser esquecido. Pra nunca deixar de ser. Se tu já sofrestes de saudades, então sabes que não se deve ir até o fundo se não tens o propósito de levar junto memórias feitas pra durar uma vida toda. Sim, porque se tu amas uma vez, então isso não tem fim. Haverão ainda novas embarcações e teus pedidos ofegantes para que recomeces, para que acumules amores, e para que nunca os deixe. Se tu já tiveras a sorte de sentir o mundo inteiro dentro do peito ao tocar o rosto de alguém, então tu sabes do que falo. E quantas pessoas tu poderias dizer que amou? Se tu bem sabes, tudo isso não é fácil definir em palavras, mas em brilhos. Se tu fosses olhar dentro das lembranças, saberia quem é que se fez guardar. Se em um dos dias sentado à beira do lago tu sentiu-se infinito, então acredites em teu coração. Amor é tempo. Tempo de levar junto e tempo de saber deixar em ti tudo que, mesmo sem dizer, desejou ficar.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

I

Se tu olhas em minha direção uma ou duas vezes, em silêncio desejo que tu não desvie o olhar. Nunca. Para que atinja o que vê ... e o que não vê também. Para que trace caminhos para chegar até aqui. Frente a frente. Para que não olhes para o lado, não percas o foco. Para que chegues e entres em meus olhos. De uma vez por todas. Se tu quer, confesso que desejo o teu desejo. Se tu me desafias, como eu sempre quis ser desafiada, então ofereço-te todo o meu respeito. E o meu amor. Se tu não corres como o mundo costuma fazer ao ter medo, então calada suplico que tu venhas logo. Para que deites no meu colo. Para que sinta minhas palavras sendo escritas lentamente no seu corpo. Para que eu declare-te um poema no escuro. Se tu quer, diga-me. Agora. Se tu me olhas, então já não há passado. Para que esse momento fique. Ofereço-te também o palpitar do meu peito, minhas mãos macias e um punhado de emoção. Para cantarmos insanidades. Olha-me e reconheça-me como tua estada. Se tu tens certeza do sim, este é o endereço. Bata a porta, uma ou duas vezes. Se tu olhas em minha direção, aproximo-me e, sem dizer nada, ofereço-te uma história. Daquelas nunca escritas. Daquelas que sonhamos quando ainda somos capazes de oferecer. Para podermos viver cada vez mais. Para podermos voar. Olho em sua direção e, em segredo, desejo sua vinda. Subitamente querendo saber de tudo que é teu.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

corra de mim (ou pra mim) agora.


"Confie no amor que te dá confiança, mas confie ainda mais no amor que te dá medo - este é para toda a vida. " - Fabrício Carpinejar


Eu te apavoro, não é? Te encho de coisas que você não sabe explicar, chego muitíssimo perto, te assusto com esse meu jeito meio manso meio urgente meio louco meio estranho meio estabanado demais. Eu te trago medo, não é? Como se eu fosse a highway que faz você se perder, dando a sensação que você está sempre na contramão, fora de rumo. Como se eu fosse as ondas do Hawaii que tu não sabe se pode dropar. Eu te assusto, não é? Porque te espero na chuva enquanto você pinta o sol, tentando se desvincular de qualquer tentativa minha de entrar pela janela do seu quarto e é óbvio, porque faço você quebrar as regras e meio que obrigo você esconder as leis embaixo da cama. Você meio que detesta bagunça e é isso que eu represento. Tenho em mim todas as essências pra te causar o caos e quero a toda hora te tirar desse regime que te deixa com fome de vida. Aposto que você tem a impressão de não saber onde está pisando, porque sempre teve muita segurança nos seus sentimentos e tudo o que eu sei fazer é te dar confusões. Te apavoro porque meus sonhos não cabem em potes, porque gosto de fugir pela cidade e tu se engana achando que precisaria colocar muito na mala pra me acompanhar. Concordemos, às vezes sou excesso, danço exageradamente, falo coisas que ninguém entende, digo o que estou sentindo antes-durante-e-depois e isso eu sei, assusta um bocado. Sei também que pareço um pouco ansiosa, lotando sua caixa eletrônica, te escrevendo cartas enormes e tentando de tudo pra você olhar pra mim. Eu te deixo em pânico, não é? Sou muito do agora, do quero-te-ver-hoje-sob-a-luz-da-lua-cheia ou então do oi-estou-no-seu-portão-nesse-exato-momento. Como se você precisasse se esquivar do que eu te causo, do que você não entende e daquela insanidade desmedida que surge quando minhas palavras afetam a sua lógica. Eu te encho de terror porque quero chegar até tua alma ao tocar a sua pele, porque te tiro do lugar e principalmente porque vivo tentando te tirar do chão, te tirar daqui e te dizer que a realidade não basta. E você quase não nota, porque o medo faz a gente fechar os olhos e nem se apresenta como tal, e você quase não percebe porque acha melhor-deixar-isso-pra-lá.  Eu te faço tremer na base, não é? É normal, nada mais que uma reação orgânica&humana, até porque eu sei que pareço mesmo uma parafernália de sentimentos e o escambau. 
Desculpa se estou viajando demais, mas essa foi a melhor resposta que consegui encontrar... Eu te apavoro porque ouso gostar verdadeiramente de você como ninguém e porque só-consigo-acreditar-que-é-tudo-isso-que-nos-leva-adiante. 
Assim é mais fácil justificar as nossas corridas.
(e isso sempre vai me apavorar).

[num dia desses de um ano terminado em número ímpar]

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Hoje eu não queria falar de medos e nem dizer que o mundo tem se enganado com muita frequência quando nos diz como as coisas devem ser. Não queria acabar pensando nessa massa de coisas que nem sei dar nome e nem ouvir meu coração gritando urgentemente por aquilo que eu ainda não conheci e por tudo aquilo que me move, mas que está estacionado em algum lugar que não consta no mapa. Hoje eu não queria ficar tentando descobrir o quando, o onde, o como e muito menos o porque. Tenho minha retina fatigada de tentar enxergar além do tempo e hoje eu não queria forçar o sangue a passear pelas veias, não queria me prender a última coisa que ficou antes do virar da esquina e não queria enfrentar o escuro.
Hoje o que eu queria mesmo era poder voar de verdade.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

um nome não faz perder o sentido, mas o seu, especificamente, altera os meus cinco.

Eu não sei que horas são. Você vai me achar meio maluca se eu te contar os sonhos que ando tendo. O garoto que entrega o jornal já passou. Ainda não me olhei no espelho. Sabe aquele encanto que eu achei que tinha por você? Não era nada disso. (não pare por aqui). Eu sei que pareço um tanto nonsense, um filme experimental sem roteiro, quem sabe? Eu não sei porque diabos as bagunças fazem a gente perder coisas (pessoas?). Eu adorava quando meu fôlego fugia na hora em que a sua voz chegava perto. Acho que hoje não vai chover, talvez no fim da tarde. Eu não sei o que fazer com essa vontade absurda tentando pular do sexto andar do meu peito. Eu já te contei sobre uma das minhas fantasias de estimação? Uma parada de alguns minutos entre o seu silêncio e o meu amor, o espaço vago sendo aos poucos desfeito... nenhum segundo sem te perder de vista, um momento onde eu me jogaria de vez do seu precipício e acabaria presa dentro da sua caixa torácica pra sempre. De quem você quer gostar? Ontem deitei no chão gelado do meu banheiro pra tentar organizar o emaranhado de fios desencapados que tem dentro de mim e o turbilhão de coisas desconexas que me chegam sem remetente. Sempre acabo achando o que não procuro ou procurando o que só chega sem avisos prévios. Ainda não tomei café.  Achei, ao menos, uma brecha enorme no meio do caos que deliberadamente batizei com o nome de: ''minha tranquilidade''. Sua praia fica mesmo tão distante? Eu sempre te acho em mim porque não sei como fazer pra parar de vasculhar as minhas sensações preferidas. Sabe que dia é hoje? Não era ilusão, mesmo que a gente concorde que é disso que a maioria dos poetas são feitos.  Alguém já dizia que uma rosa não perde o seu cheiro se ela tiver um outro nome qualquer.  Um milhão de doláres pelos seus pensamentos, que tal? Não precisa ficar o tempo todinho mostrando o quanto há maturidade em você.  Eu aceito seu jeito sem jeito de dizer que só pode ir até certo ponto, mas não me peça ausência de saudade, por favor. Eu sempre te acho em mim porque vivo voltando para as minhas melhores memórias como se elas fossem um desses lugares que usam de estratégias de conquista (melhorando a comida, diminuindo o preço, destacando a paisagem ou simplesmente ganhando pontos com a diversão que a gente só encontra lá). Como se volta para um tempo em que nada disso fazia diferença? Uma rosa ainda seria uma rosa se fosse chamada de peixe. Você consegue me ver como me via antes?  Queria estar cheia de você (nos dois sentidos).  A torradeira já apitou. Quando o coração palpita pra valer ninguém mais consegue ser tão&somente adulto. Os choques que eu levo me deixam mais alerta. O suco já deve estar gelado. Tudo bem se, às vezes, a gente sentir um tanto de raiva por não conseguir voltar para um tempo em que era difícil comer um pedaço inteiro de pizza de quatro queijos sozinho. Ainda não troquei de roupa. Ninguém vai rir se você me guardar embaixo do travesseiro. Eu sinto falta de quando você me perguntava coisas. Tudo bem se você chorar um pouco antes de se vestir e sair para enfrentar o mundo. Você ainda lembra? Nossas mãos, um dia, não sabiam como ficar longe uma da outra. Sabe aquele encanto que eu achei que tinha por você? Não era nada disso.
Era mais. Sempre foi. Sempre vai ser. (E eu ouso usar essa palavra porque acredito nela mais do que qualquer coisa que dizem pra não acreditar).
Eu não sei que horas são.... mas pra mim agora é sempre cedo.
Volta a dormir.
A realidade já está com a agenda lotada por hoje e isso tudo já não é mais novidade.
 Volta a dormir que é dessa forma que a gente se encontra... que é dessa forma que tudo começa...
e (do nada) termina.

Texto escrito em 2011

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Um pedido pelas nossas formas juntas.


Ao som de "Stars" - The xx

É isso. Se eu pudesse pedir alguma coisa agora seria isso. Você, numa dessas noites de ar fresco, com seus olhos caindo nos meus. Nós dentro do teu carro. A esquina da minha casa. Madrugada. Uma música de "The xx" tocando. Você querendo me beijar. Eu te beijando. É isso. Se eu pudesse pedir alguma coisa agora seria isso.
Você. Você. Você e ninguém mais. Nós. 
Música lenta. Corações acelerados. Verdade. Toques delicados. Calma. Entrega. Estrelas.
Pulo dos medos. Aniquilamento das fugas. Esquecimento do tempo.
Deixando ser possível. Nós.
Eu gostando de você. Teu carro me olhando. Eu querendo beijar a noite de ar fresco. Você beijando a madrugada. A esquina da minha casa tocando. Nós dentro de uma música de "The xx". Você gostando de mim.
Verdade calma. Estrelas aceleradas. Música delicada. Toques lentos. Corações entregues. Caindo meus olhos nos seus. 
É isso. Se eu pudesse pedir alguma coisa agora seria isso. Você e - de todas as formas - a gente gostando da gente. Você e - de alguma forma - nós, numa noite de ar fresco, tocando a felicidade.
Aniquilamento do tempo, pulo das fugas, esquecimento dos medos. 
Sendo possível deixar ser. Nós, numa noite de felicidade fresca, sendo de algumas e de todas as formas. Nós.
Você. Você. Você e mais ninguém.
É isso. Se eu pudesse pedir alguma coisa agora seria isso... exatamente isso.


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Estrangeiros de nós

Revirando o silêncio, sintonizando as estranhezas, pulando em águas turvas e calçando augúrios. A mente inventa cada coisa, meu amigo.  Alaga, enxarca e nos afoga no pouco que a razão oferece, esperando ainda - como troca - que sejamos coerentes, escondendo toda a verdade. E o que é a verdade?
Por poucos segundos a consciência bate na porta e diz que tudo isso não existe. E se nada disso existe, onde foi parar o chão?
Esmagando as teorias, sufocando as práticas, apanhando dos que se dizem certos. Se nada disso existe, quem é capaz de dizer pelo que vale a pena sonhar?
Sonhar talvez seja o melhor que podemos fazer. E sofre quem é sonhador nessa coisa tão cartesiana.
Martelando a imaginação, cometendo suicídios de tudo e rastejando em busca de nada. Estamos presos em uma enorme fantasia e ninguém sabe dizer porquê.
O mundo acabou faz tempo e ninguém sequer se deu conta. Dis-traídos.
Emaranhado de sentimentos criados por uma geração que nunca teve - e nem terá - tal resposta. O nosso medo é descobrir. Fechamos os olhos e em vez de mergulhar para dentro, corremos e esperamos que alguma coisa nos salve. De quem? De mim, de você, deles. Deslocados de lugar algum.
Loucos de fome, de vazios, anfetaminas e escuridão que vêm de duzentas décadas atrás. Enganados. Superficiais. Desconhecidos. Indigentes. É obscuro pensar, companheiro. É incômodo não ter certeza de nada. É estranho não saber quando meio mundo vive dizendo que sabe. Se nada disso existe então somos todos fagulhas de algo inomeável. Somos criação. Iludidos, ilusórios. Irreais. A gente inventa a realidade porque, na realidade, ela não existe. E o que é isso então?
O caos, a ânsia, os monstros, as limitações. Tudo vem de dentro e só se olha aquilo que está fora da janela. A mente não te deixa escapar. É demais. Nascemos com gente gritando na nossa orelha o que deve ser feito.
Encontramos o amor e fizemos o que? Mera fuga. E razão. Ninguém ensina mais a ficar. Somos passagem. Livres demais. Prisioneiros de nós. Banais. E queremos, temos vontade de permanecer em algo. Ser alguém. Temos as nossas sensações brigando o tempo inteiro. O tempo não existe e devora. Encontramos o amor e fizemos o que? Etiquetamos ele. Demos nome àquilo que só devia ser sentido.
Se nada disso existe... estamos sendo devorados? Por quem?
Revirando as identidades, bagunçando as gavetas, procurando por alguma coisa que ninguém sabe o que é. Chegamos perto, mas precisamos alcançar. É tudo coisa da nossa cabeça e precisávamos ser almas para entender aquilo que não se entende. Mais um milhão de décadas e continuaremos sem saber. Aceitamos. Vivemos. Amamos do jeito que sabemos. Burros, cegos e loucos. Retirando da incompreensão toda nossa fonte de vida.
E viver é lindo, mesmo que sejam poucos aqueles que param pra pensar naquilo que não é pensado e que sejam muitos aqueles que se sentem como um trem desgovernado sem ter qualquer indício de onde é que se vai parar.