quarta-feira, 21 de julho de 2010

Navegando nessa imensidão de pessoas sem rosto, sem identidade. Copiando versos de muros, tirando fotos do próprio isolamento. Costurando enfeites fúteis na alma para depois descosturar e sumir com a superficialidade dos pontos dados. Perdendo a calma no meio desse borrado de faces, dessa procura irreal por coisas que não chegarão no momento certo - nem no momento errado, pois já não existe a forma temporal dos acasos. Deixar embaixo da cama o que sobrou e só arriscar tirar dali por bons motivos. Falar em alto e bom tom que tudo não passa de invenção maligna dos seres discretos. Mantendo-se transparente mesmo quando os sem nome te olham e passam a te despir em qualquer lugar que ouse encontrar uma porta. As certezas afundam no raso e não sabem se querem ser salvas. No meio da poça, é preciso escolher, desistir? E viver do que meu Deus, do que? Das imundas farsas das pessoas sem rosto? Ou pintar todo dia um rosto novo? Mergulhar acreditando no próprio rosto pintado e piedosamente frágil? Só ser, independente dessa humilhação por não saber onde está e nem como irá reagir. Voltar a sentir e supostamente alguma coisa pode acontecer. Deixar de sentir e nunca mais se machucar. Usar então o próprio rosto sem artifícios como sempre foi, e andar - ou correr - em busca da liberdade entre o sufocado mar de gente identificavelmente (des)conhecidas.

4 comentários:

  1. Eu diria que cansa, que tudo isso cansa, e muito. Simplesmente escolher nunca foi - e nem sei se será um dia - algo fácil.

    "Voltar a sentir e supostamente alguma coisa pode acontecer. Deixar de sentir e nunca mais se machucar."

    ;)

    ResponderExcluir
  2. 'Deixar embaixo da cama o que sobrou e só arriscar tirar dali por bons motivos. Falar em alto e bom tom que tudo não passa de invenção maligna dos seres discretos.'

    não sei se já disse, mais suas palavras me arrepiam .

    ResponderExcluir
  3. "Mantendo-se transparente mesmo quando os sem nome te olham e passam a te despir em qualquer lugar que ouse encontrar uma porta."
    Isso me encomoda, confesso! Não sei se conseguiria, mas é muito interessante.

    Adorei o texto (como sempre)...
    Beijos.

    ResponderExcluir
  4. E viver do que meu Deus, do que? Das imundas farsas das pessoas sem rosto? Ou pintar todo dia um rosto novo?

    Adoro sua imaginação!

    ResponderExcluir