segunda-feira, 12 de julho de 2010

fantasia calada.


Ficou amordaçada por um bom tempo. Impedida de falar, de lembrar, de viver. Não apenas a boca havia sido calada, como todo o resto. Vácuo. Prisioneira das próprias escolhas. Impedida até de enxergar. É verdade que achava que era feita de vidro e que poderia cair no chão a qualquer momento, sendo quebrada em milhões de pedaços -, um esparramado de cacos, que não voltariam a se juntar. Dúvidas. Desencontros. Passou dias no escuro. Não via, não falava, não existia. Um penduricalho fantasioso. Vivendo no submundo. Diferente. Há pouco tiraram sua mordaça - mas não acenderam a luz. Tentou falar, mas não havia voz alguma. Desaprendeu a língua dos homens. Esforços em vão. Não quer mais falar, não tenta mais. Melhor assim? Não sabia até que ponto a julgavam sem entender seus mistérios. Acostumou-se com a situação ao ponto de - simplesmente - abstrair a dor. Miudezas. Logo voltariam com aquela coisa e a tapariam inteira novamente. Em meio ao breu pensou: O que há de se fazer contra aqueles que tudo calam? Encarcerada e muda, jamais obteve tal resposta, mas descobriu que nada nela era de vidro, - talvez carne e osso, revestida com uma camada espessa de frieza.

3 comentários:

  1. Ah,eu sou fã dessa sua arte de escrever,são palavras que se unem e me dão o prazer de leituras de muita sensibilidade e feição.Parabéns o texto e maravilhoso.

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  2. E, enfim, podem ser ouvidos os aplausos... aplausos e mais aplausos!

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  3. "...mas descobriu que nada nela era de vidro, - talvez carne e osso, revestida com uma camada espessa de frieza. "

    Essa camada de frieza é por vezes o que nos protege. Talvez não seja a melhor proteção, mas serve...

    ;*

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