Era preciso sair dali para enxergar, era necessário mais que dois passos em direção a ventania para que pudesse ficar claro. Abrir os portões - dois - que dizem que fica um do lado do outro, mas que dizem também ser bem difícil atravessa-los ou saber exatamente qual é qual. Talvez não exista portão nenhum, talvez seja invenção, não é? Pode ser que seja. Mas ainda assim era preciso se mover para ter certeza, uma certeza branda e escura, como água escorrendo sobre a cidade poluída. O grande problema, - se é que estar perdido pode chegar a ser um problema – era que a linha a ser atravessada era muito fácil na teoria e incrivelmente desesperada na prática. Podia ser apenas por falta de atenção interior, ou sei lá, falta de coragem para encontrar o que não se procura. É, está tão bom dentro disso que não nos permitiríamos sair da nossa própria invenção cotidiana, tecendo cada vez mais as pequenas histórias - com “h” mesmo -, para não se lembrar de outras coisas aparentemente sujas e insossas. Aqui dentro se pode dizer que as palavras que começam com “in” e terminam com “dade” sempre foram bem-vindas e apreciadas lentamente com as pontas dos dedos finos. Essas assim como: intensidade, intimidade, insanidade e tantas outras que poderia citar mas que prefiro deixar mortas no dicionário - para não sair ou entrar aqui onde constantemente amanhece e anoitece tão friamente que congela até as coisas coloridas e brilhantes. Tem vezes que arrisco e vejo, o estranho dessa visão aguçada é que também te vejo em todos os lugares: no jeito daquele virar o pescoço lentamente pro lado, no jeito do cabelo de outro, na barba mal-feita do dono do bar da capital, nas pessoas dançando freneticamente nas noites de sábado, na boca avermelhada da moça no trem, em qualquer lugar, as pessoas parecem tanto contigo, parece coisa feita, dizem que isso acontece quando sentimos muita saudade, acho que deve ser coisa de algum desses deuses egípcios, mágicos marroquinos ou escritores bagunçadamente gaúchos que fazem esse tipo de coisa dolorida acontecer pra enlouquecer a gente devagar. Acho na verdade que são essas pessoas que não entendem as boas intenções de continuar limpinho no meio dessa sujeira – como se estivéssemos presos dentro de uma lata de lixo não reciclável, cheios de pó branco na cara, suor de covardias e purpurina de fantasias carnavalescas grudados na pele arranhada, cheiro de comidas amanhecidas e de bebidas azedas -, pessoas que não entendem que a gente pode continuar pegando na mão apenas por carinho, por pura proteção ou pra invocar Iemanjá, nada mais que isso. Tem quem não entenda isso, tem gente que não entende que as coisas podem ser bem simples, bonitas e verdadeiras, - mesmo nessa época - porque pelo menos eu ainda costumo escutar o que as pessoas tem pra falar, tão de coração aberto, tanto fora quanto dentro do que é bom pra mim, tem gente que não entende sabe? Talvez falem, mas no fundo só querem que a gente escute por puro egocentrismo, mas eu mantenho intacta essa capacidade de entender, já que muita gente nesse mundo não para mais pra ouvir os outros, nem pra ouvir a si mesmo - grande mentira. Além dessas vezes que saio e vejo tudo igual, não me arrisco a atravessar a névoa esbranquiçada de fumaça de cheiro amargo. No máximo vejo os néons, que de algum modo – também misterioso – me deixam bem, é a única coisa no mecanismo que sou capaz de enxergar além. Mentira, não é só nisso que vejo, por isso a dúvida entende? Talvez eu tenha ultrapassado a tempo a ventania e esteja bem no centro, fora de mim mesma, fora do círculo, fora do movimento, e talvez seja isso que me abra os olhos e me faça continuar perfeitamente preparada para entender o fundo da poça de lama que nos encontramos ou para afastar as coisas feias por natureza ou agarra-las até o ultimo fio, já que não faz diferença nesse estado onde se vê além, onde se enxerga além da roda-gigante, que há muito tempo nem existe mais. Infelicidade, Incapacidade, Instabilidade é um portão. Felicidade, Simplicidade, Verdade é o outro portão que a gente tira o In de Invisibilidade e só aproveita pra ver bem além do nada e do tudo, além de mim e de você que sangra todo dia em corpos que não são seus e memórias que não são mais minhas.
"e só aproveita pra ver bem além do nada e do tudo, além de mim e de você que sangra todo dia em corpos que não são seus e memórias que não são mais minhas."
ResponderExcluirme ensina a parar de agir assim? ou a aceitar...sei lá.
olá!
ResponderExcluirtudo bom???
muito prazer,me chamo Augusto César...
gostei muito do seu blogger. show de bola!
estou lhe seguindo,me siga também???
http://osegredodosescritores.blogspot.com/